Crítica | Streaming

Buba

Descarga contra o marasmo

(Buba, ALE, 2022)
Nota  
  • Gênero: Comédia
  • Direção: Arne Feldhusen
  • Roteiro: Boris Kunz, Natalie Thomas, Sebastian Colley, Isaiah Michalski
  • Elenco: Bjarne Mädel, George Friedrich, Anita Vulesica, Soma Pysall, Jasmin Shakeri, Michael Ostrowski, Michael Schertenleib, Maren Kroymann, Moritz Heiring, Valentin Reichhalter
  • Duração: 94 minutos

Parece que alguém andou sentindo saudades do Guy Ritchie de Snatch: Porcos e Diamantes aqui por volta desse Buba. Violentíssima comédia alemã que estreia hoje na Netflix, o filme se comunica demais com esse drama indie britânico sobre desvalidos marginais que não tem outra coisa a fazer na vida a não ser perder, e sangrar. Aqui, o universo é tão indócil e repleto de elementos, que o espectador terá de fazer um esforço para acompanhar seus lances. Não é uma narrativa complexa a priori, o filme até brinca com essa expectativa de complexidade. O que tem na verdade é um empilhamento de situações, envolvendo sempre um grupo de personagens elevado às cenas, o que causa um certo povoamento de situações, por isso a confusão. 

O diretor Arne Feldhusen vêm de forte exposição com a série Como Vender Drogas Online (Rápido) e aqui encontra os personagens que estão lá, quase como espécie de Better Call Saul germânica. Mais uma vez, o diretor emprega uma narrativa que caiba à sua verve febril, ainda que esteja a serviço de uma narrativa, seguindo os passos da série base. Sem atropelos formais, a velocidade contida aqui não se assemelha a um filme de ação hollywoodiano tradicional; os esforços aqui não são para promover adrenalina imagética, mas para injetar uma tensão que só se absorve em lugares periféricos. Mesmo passado na Alemanha, os lugares frequentados aqui são muito reflexo dos tipos mostrados pelo filme, uma sincera fatia da escória com pouca chance de recuperação. Se respinga aqui e ali em algum tipo menos tóxico, é quase como se fosse sem querer. 

Buba
Bernd Spauke/Netflix

Mas há um argumento acontecendo em paralelo ao vermelho escorrendo pelas paredes. Jakob é um homem que procura o azar, por achar que sua desgraça promove o bem alheio. Desde que escapou do acidente de carro que matou os pais, ele se convenceu de que precisa infligir algum mal a si de maneira diária, para manter a felicidade de quem o cerca, no caso o irmão por quem tem uma adoração meio doentia. Aos poucos, essa necessidade do protagonista foi ganhando ares de invencibilidade, dado que ele não se importa em sentir dor. Vejam bem, não é que ele não sinta – ele sente, mas a dor o ajuda a lembrar que ela promove o bem ao universo, por isso a suporta. Assim sendo, é quase como se fôssemos confrontados à descoberta de um anti-super-herói, que nasce quase do acaso e se torna, pasmem, um dos vilões.  

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Nessa cartilha do sacrifício eterno e irremediável, que promove o bem a todos menos a si, Buba fala sobre a necessidade de fabular em contextos anacrônicos. Com uma estrutura episódica que não esconde seu final desde a primeira cena, o que nos leva a acompanhar essa narrativa rumo ao conhecido? Há quilos de carisma envolvendo essa maçaroca de acontecimentos, que são empilhados quase sem nos dar tempo para respirar. Do concurso de break onde Leonardo DiCaprio (!!!) participou até a descoberta de um casal gay dentro da máfia albanesa (!!!), Buba não cansa de elencar suas idiossincrasias narrativas. Mesmo que nem tudo saia exatamente da forma como quereríamos, o filme seduz de uma maneira muito explícita seu espectador, com elementos que apenas estão posicionados como raros, mesmo sem ser. 

Buba
Bernd Spauke/Netflix

Carregados na caracterização, os atores Bjarne Mädel e Georg Friedrich interpretam os irmãos envolvidos em todo tipo de transação ilegal e criminosa, mas que não desconectam sua relação mutuamente. São interpretações muito carregadas, ambas afetadas, e imersas em exagero, combinando com a proposta da produção. Funciona, ainda que isso balance na duração do todo, com o tanto de informação que cada nova faceta de seus personagens entreguem. É a partir dessa dobradinha que todo o resto do elenco acaba se mostrando bravos de acompanhar a quase histeria desses intérpretes, no entanto está todo no lugar de maneira estranhamente acertada. Não caberia que estivesse tudo em terreno plano aqui; os acidentes de seu roteiro tiram o filme de um sossego que não pertence a ele, ainda bem. 

Um grande momento
Tiroteio no casamento

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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