Crítica | Streaming

Caçada

Lobos maus

(Hunter Hunter, CAN, 2020)
Nota  
  • Gênero: Terror
  • Direção: Shawn Linden
  • Roteiro: Shawn Linden
  • Elenco: Camille Sullivan, Nick Stahl, Devon Sawa, Summer H. Howell, Lauren Cochrane, Gabriel Daniels
  • Duração: 93 minutos

Certos filmes são como uma cebola – suas camadas vão sendo desfolhadas, e vamos compreendendo novas percepções a respeito da obra, agregando valores e conteúdo ao projeto como um todo. Caçada acabou de estrear na HBO Max, e ao contrário do que tenho lido, na verdade a cebola aqui era bem pequenina; uma chalota. Não que seu sabor não possa ser apreciado devidamente, mas o grande X da questão demora a aparecer, joga pra tantos lados que ficamos meio zonzos, mas sua resolução é tão marcante que é capaz de percebermos apenas isso. Antes dos 15 minutos finais, no entanto, existe um filme inteiro que é conduzido com alguma previsibilidade.

O diretor Shawn Linden está em seu terceiro longa, sempre passeia em torno do sinistro em suas produções e consegue uma atmosfera bem assustadora aqui, graças ao que compõem aos poucos. São elementos tidos como estranhos jogados na direção de uma história que aparenta se desenvolver com outras texturas, e são essas estranhezas que produzem no espectador uma sensação de desconforto. Com o entendimento desses elementos contrários ao que se propõe, seu talento é aquele que Hitchcock já ensinou e, quem foi bom aluno, aprendeu: sugerir é muito mais eficaz do que explicitar, e graças ao que não vemos, o clima eleva tudo o que vai se desenrolando. Junta-se a isso também as opções em não tornar claras os caminhos do filme – as coisas simplesmente são.

A Caçada (2020)
IFC Midnight

Sua premissa é tão eficiente quanto simples: uma família – pai, mãe e filha – vivem em uma cabana próxima a uma floresta durante o período de outono e inverno, onde caçam para sobreviver e tentar extrair dessas atividades alguma subsistência para o resto do ano. Fica claro que há insatisfação materna no rumo que as coisas tomaram, agora que a menina já entrou na adolescência e adquiriu uma coragem que pode cegar para os perigos de um bosque cercado pelos perigos do desconhecido. Essa narrativa é estabelecida com qualidades, mas o filme não a enxerta de maiores predicados, deixando muitas pontas soltas, muitas situações providenciais para que o roteiro se justifique de tais formas.

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Dessa vez, então, o que está em jogo é a qualidade do que é moldado em seu roteiro, também de autoria de Linden. Seu trabalho como diretor é acima da média, mas ao contrário de uma vertente da cinefilia hoje, não acho que o trabalho que se tenha em produzir material narrativo deva ser descartável, se houver uma autoralidade que suplante outros méritos. No Cinema, o elementos precisam funcionar como uma orquestra, e não como uma banda de hardcore, com a bateria atrapalhando o som da guitarra, e uma gritaria zoada de agudos ensurdeçam o espectador. Os méritos de direção aqui são óbvios, mas não apagam os clichês e nem conseguem transformá-los em arte; não é impossível nem raro de acontecer.

A Caçada (2020)
IFC Midnight

O que deixa Caçada acima da média é exatamente a forma como o filme vai afunilando seu conceito – ainda que não se furte aos furos – e moldando uma nova percepção dentro do campo geral. Além disso, é mais um filme sobre a queda do macho tóxico, esse aqui ainda mais evidente e pertinente que Sequestro Noturno. Uma produção que subverte sua aparência, quando todos os homens começam a cair como moscas, restando às mulheres fazer o serviço MUITO sujo. Que saiamos de um ambiente soturno e dominado pelas falas masculinas para reiterar a presença feminina em meio ao caos, é um ponto interessante que o filme reforça com indisfarçável prazer.

No topo do sundae, a premiada atuação de Camille Sullivan faz de Caçada um exemplar onde um toque de categoria cai bem. Sua personagem não é um primor de delineamento, mas o que o roteiro não faz, a atriz faz sozinha, recheando o filme com sua presença constantemente alerta, que desemboca em um clímax de impacto inimaginável, embora absolutamente compreensível. Sua Anne, ela sim, é a cebola escondida dentro da produção, uma verdadeira loba na selva onde é jogada para sobreviver sem nem ter o direito de saber do mal que a espreita. É por causa de sua interpretação que a única cena explícita do filme é ainda mais poderosa e tão determinante para a reverberação de Caçada.

Um grande momento
O encontro dos corpos

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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