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Sequestro Noturno

Por trás do gênero

(Watching, KOR, 2019)
Nota  
  • Gênero: Suspense
  • Direção: Kim Sung-Gi
  • Roteiro: Kim Sung-Gi
  • Elenco: Ye Won-Kang, Hak-Joo Lee, Joo Suk-Tae, Im Ji-Hyun, Gye-Nam Myeong
  • Duração: 97 minutos

Os cinco minutos finais, ou a decisão final de seu protagonista masculino, deixa claro o quanto de machismo Sequestro Noturno está abordando. É quase assustadora a forma como o filme se encerra, não pela forma como o faz, mas em como esse motivo é tão explicitado – eu, homem, não me submeto a nenhuma decisão tomada por você, mulher. Levando em consideração que toda forma de demonstração de poder insidiosa de um homem sobre uma mulher é um meio de propagar práticas machistas, o longa de estreia do diretor sul-coreano Kim Sung-Gi lentamente coloca essa moral na mesa, ainda que nunca deixe de fora da conversa o assédio masculino e as inúmeras formas de violência que uma mulher sofre mesmo em ambientes aparentemente controlados por elas.

O ambiente corporativo, por exemplo. Há a competição feminina por si só, há a cobrança por um papel social superior aos dos homens, e também há à espreita uma lógica de normalização das relações de trabalho perniciosas, que uma mulher já tem de lidar paralela às outras. O filme já filtra sua protagonista Young-Woo em constante perseguição, seja por sua assistente, seja pelo seu superior, e até mesmo pelo simpático e falante segurança do prédio da firma. O roteiro de Sung-Gi ainda atenta para o fato de que sua protagonista é mãe solo, ou seja, ela precisa estar naquele lugar onde é constantemente ameaçada por ser mulher, e logo veremos que esse aspecto é ainda mais abrangente do que se imagina.

Sequestro Noturno
Divulgação

Sequestro Noturno, em tese, é um thriller de suspense, daqueles que já foram produzidos anteriormente com alguma frequência. O filme tem esse lado político muito forte, falando sobre gênero, mas essencialmente isso está inserido em um contexto de paranoia e perseguição. Essa é uma realidade do gênero onde o filme está inserido, e rapidamente as chaves de discussão sociais se transformam em métricas de um cinema que reconhecemos, que aqui se revela com alguma eficácia, a partir de determinado momento. Sem atropelar os assuntos, o filme alicerça essas duas óticas com segurança, introduzindo o espectador em um lugar amedrontador de verdade.

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Como diretor, Sung-Gi não é exatamente um esteta. O filme peca em sua construção imagética com alguma frequência, não decupando muito bem seus planos, dando uma impressão descuidada. Mas essa é uma questão subjetiva, porque a produção avança pelo terreno da tensão com um bom domínio de suas molas. Embora não domine as técnicas com precisão, o diretor sabe exatamente o que fazer para tornar ágil e perturbador seu jogo de gato e rato quase restritivo a dois personagens, onde elementos exteriores acabam transformando o quadro geral a cada novo bloco. É uma relação doentia que acaba se desdobrando para um contexto ainda maior, sem jamais perder suas tintas iniciais.

Sequestro Noturno
Divulgação

Sem revelar muito mais do contexto de Sequestro Noturno, que verdadeiramente vai se transformando em um rocambole de diversas possibilidades de thrillers, dá pra levantar a questão de como essas camadas se complementam. Na verdade, é o viés político tão evidente e a forma como esse filme consegue escalar novos degraus dentro do gênero sem cansar, que nos leva até o final da produção. Contando com um elenco muito enxuto, sua proposta teria tudo para cansar rapidamente se transformasse em uma espécie de teatro filmado, mas o acúmulo de plots aqui disfarça as deficiências que a direção apresenta, de maneira mais clara.

Aos poucos, o que vemos que parece escamotear a verdade sobre as relações de poder e a guerra dos sexos em uma pirâmide empresarial, na verdade é um grande complemento formando um mosaico de muitas formas de perda de lugar de fala. E a sororidade que parecia atacada pela produção, acaba se mostrando como uma saída para o mal dos dias de hoje. Com isso, esse filme que poderia ter se desenvolvido com esquematismo padrão, acaba nos mostrando um lugar amplo de discussão social em busca de desmascarar o feminicídio internalizado em muitos homens. A tal fala final, que desafia qualquer tentativa de entendimento do outro, deixa claro que as mulheres ainda têm muito a escalar.

Um grande momento
Fios que prendem cadeiras

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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