Crítica | Festival

Carro Rei

Inimigos do rei?

(Carro Rei, BRA, 2021)

  • Gênero: Ficção científica
  • Direção: Renata Pinheiro
  • Roteiro: Renata Pinheiro, Sérgio Oliveira, Leo Pyrata
  • Elenco: Matheus Nachtergaele, Luciano Pedro Junior, Jules Elting, Clara Pinheiro, Tavinho Teixeira
  • Duração: 99 minutos
  • Nota:

Em determinada cena de ‘Carro Rei’, o novo longa de Renata Pinheiro, seu personagem-título seduz uma mulher ao se apresentar, e acrescenta uma expressão a essa apresentação, ‘mutcho gusto’, levando nossa memória imediatamente para ‘Amor, Plástico e Barulho’, primeiro longa de ficção de Renata estrelado por Maeve Jinkings, quer dizer, por Jaqueline Carvalho, que se apresentava com a mesma expressão. Através de duas palavras, um estado de acolhimento emocional invade esse novo filme, como sentir um solo seguro para a compreensão da sensibilidade de um longa que tem o que dizer, sem deixar de agregar os valores que a diretora construiu. 

Desde ‘Estradeiros’, filmar o movimento dos corpos em diferentes estágios de ebulição parece uma intenção observacional onde a diretora pretende chegar. Embebido do cinema de gênero norte americano, o filme engata na nossa realidade mais descentralizada esses signos que já foram assimilados por Cronenberg e Carpenter, pra reconfigurar esse arquétipo do homem-máquina, aqui retorcido e regurgitado do avesso. O conceito de mecanização do homem, tão presente na filmografia naturalista brasileira, aqui atravessa uma variante quase futurista, ao fabular a criação desse objeto inanimado que ganha vida para dominar os humanos. 

Ao possibilitar que um carro não apenas se comunique como também realize ações tão mundanas quanto extraordinárias, o roteiro de Renata e seu colaborador habitual Sergio Oliveira com a adição de Leo Pyrata, subverte alguns conceitos do tradicional interior, intercalando a modernidade ferramentícia que J. G. Ballard construiu em seu ‘Crash’ e uma ideia de sertão já concebida na tradição do cinema recente nacional. Se em 1996 Cronenberg nos mostrou pessoas transando em acidentes e com deficiências motoras, porque não podemos ver um carro-homem tendo uma relação sexual? 

Com um recorte assumidamente político de viés ultra contemporâneo, ‘Carro Rei’ tem na figura representada por Matheus Nachtergaele uma zona de risco constante. Apresentado cheio de muletas, Zé é um coringa narrativo que insere inúmeros pontos de inflexão na atmosfera cênica. Trazendo desconforto com sua postura, aos poucos Renata desconstroi sua imagem e apresenta novas que sempre agregam, reforçando os olhares pro todo no filme. Ao final da jornada, Zé estará em pé de igualdade com as figuras mais nefastas do país na atualidade, e essa construção sorrateira fará todo sentido dentro do contexto de pesadelo que o filme gradativamente apresenta. 

Renata hoje realiza um cinema sem medo do salto no abismo, que abraça o risco, até o absorve e está amplamente pronta para o erro. Pela consciência de seus excessos, por apostar em uma posição kamikaze de enfrentamento fílmico, ‘Carro Rei’ elabora um compêndio muito amplo de discussões múltiplas, onde muitas coisas não passam de pinceladas. Poder político que tenta manipular socialmente, ascensão de classes periféricas que se deturpam no caminho, dominação de classes elevadas sobre as periféricas e a posterior união que fará a força: com tantas ideias para serem desenvolvidas, algumas não acabam passando de um comentário breve que iluminam a produção momentaneamente, e esse é o preço que se paga pela ambição. 

Com algumas imagens abstratas e surreais que compõem um painel de interpretação imagético a respeito da desumanização das massas (a dança dos mecânicos é nunca menos que hipnotizante) e da elegia exacerbada à tecnologia que a longo prazo levará ao caos, ‘Carro Rei’ é mais uma prova que nosso cinema é múltiplo, ainda que promove um caldeirão cultural interno e externo. uma fonte constante de fascínio pela capacidade de agregar ideias e imagens sempre poderosas e urgentes através do risco. 

Um grande momento:

Caruaru Acima de Todos.

[Festival Internacional de Cinema de Roterdã]

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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