Crítica | Festival

Celts

(Келти, SER, 2021)
Nota  
  • Gênero: Comédia
  • Direção: Milica Tomovic
  • Roteiro: Milica Tomovic, Tanja Sljivar
  • Elenco: Dubravka Kovjanic, Stefan Trifunovic, Katarina Dimic, Anja Djordjevic, Olga Odanovic, Konstantin Ilin, Milica Grujicic, Slaven Doslo, Nikola Rakocevic
  • Duração: 106 minutos

A primeira cena de Celts mostra a matriarca Marijana (Dubravka Kovjanic) na cama se masturbando logo após acordar. Nos planos bastante fechados da diretora Milica Tomovic, a sequência é um momento ao mesmo tempo sensorial e quase cotidiano – a passagem do marido (Stefan Trifunovic) pelo quarto não interrompe a sessão da esposa – mais intenso que desesperado. A personagem goza e cheira os dedos molhados. Agora, o dia pode começar.

É uma abertura que, de certa forma, sintetiza o olhar da cineasta sobre seus personagens e sobre o momento histórico que ela recorta no filme. Celts se passa em Belgrado, na Sérvia, em 1993, em meio à crise após o esfacelamento do bloco soviético e a dissolução da ex-Iugoslávia.  A economia está em frangalhos, não há muita esperança no futuro, o país que é hoje pode não ser o mesmo amanhã. Mas, de algum jeito, no meio de todo esse caos, os personagens – assim como Marijana na cena inicial – encontram uma forma de prazer. Mesmo diante da iminência do fim do mundo, há algo inerente ao ser humano capaz de ignorar tudo, ainda que por alguns minutos, e encenar um teatro, por mais mambembe que seja, de puro hedonismo.

Celts (2021)
Cecilia Barroso | Cenas de Cinema © Irena Canic

No caso do longa de Tomovic, esse momento é a festa de aniversário da pequena Minja (Katarina Dimic), filha de Marijana. Celts se divide em três momentos bem distintos: os preparativos durante o dia, a festa à noite, apresentada em tempo real, e a ressaca na manhã seguinte. O “grosso” do filme, porém – cerca de 80% da projeção – é essa celebração central. Enquanto as crianças se divertem na sala com suas fantasias bastante cospobre de “Tartarugas Ninja”, tomando ki-suco preparado em garrafas reutilizadas de Coca-cola, os adultos fazem sua festinha particular na cozinha, à base de drogas lícitas e ilícitas, niilismo, fofocas, barracos e energia sexual acumulada. Puro suco de anos 90.

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E os melhores momentos da produção são graças a essa versão nada para baixinhos da festa infantil, em que os adultos se revelam menores bem mais desacompanhados e irresponsáveis que as crianças. Há um triângulo amoroso lésbico, uma tia semialcoólatra pensando em ter um filho com o amigo gay, uma esposa sexualmente frustrada com seu marido impotente, um tio gay de direita irritado com uma lésbica dramaturga socialista de butique sustentada pelos pais, um cunhado anarquista ex-neonazi… enquanto isso, as crianças são bullies cruéis umas com as outras na sala (são os anos 90), e um garoto sozinho no banheiro pode causar um desastre. O aniversário da pequena Minja se passa numa casa que poderia ser descrita como… “babadeira”.

Celts (2021)
Cecilia Barroso | Cenas de Cinema © Irena Canic

Tomovic, em seu primeiro longa, equilibra Celts entre todos esses personagens, deixando que o espectador gradualmente conheça cada um deles, sustentada em boas atuações, um tom naturalista e um humor que nunca apela para caricaturas banais. O aspecto mais interessante do filme é como a cineasta faz uma alegoria sutil e bem-humorada – e levemente queer – sobre a complexa questão das várias etnias que há séculos se digladiam nos Bálcãs, mostrando que identidade não é algo fixo e único. Ninguém é simplesmente gay ou lésbica, latino, branco ou europeu: somos todos o resultado de uma série de aspectos e categorias, por vezes incongruentes, que nos tornam muito mais complexos do que um grupo definido arbitrariamente e delimitado por fronteiras geográficas.

Ainda assim, temos que aprender a conviver uns com os outros, especialmente com quem não gostamos, num espaço muitas vezes apertado, que mal cabe todo mundo. Tomovic e o diretor de fotografia Dalibor Tonkovic ressaltam essa sensação claustrofóbica com planos quase sempre muito fechados, que por um lado aproximam o espectador dos poros dos personagens, criando uma intimidade quase forçada, e por outro ressaltam como aquelas pessoas se sentem presas ali, naquele país, naquela época, naquela situação social, naquele contexto desfavorável. De quebra, os closes servem ainda para destacar o excelente trabalho de reconstituição de época do design de produção de Marija Mitric e a riqueza de detalhes da abarrotada e minúscula case de classe média baixa em que quase todo o longa se passa.

Celts (2021)
Cecilia Barroso | Cenas de Cinema © Irena Canic

Um dos poréns de Celts é que a festa em tempo real de seu segundo ato é de uma força tão inquestionável que é possível argumentar que o que vem antes e depois é quase desnecessário – e o longa talvez funcionaria ainda melhor como uma reimaginação queer contemporânea d’O Baile dos Bombeiros de Milos Forman. Mas ainda que não saiba bem quando terminar, o longa diverte com sua originalidade e seu olhar ao mesmo tempo cáustico e terno sobre os personagens e seus arremedos muito humanos de prazer e felicidade, diante de um mundo que não lhes permite nada mais sólido ou real.

Um grande momento
A festa central toda… mas para escolher um momento específico, o acidente com um elemento MUITO importante da comemoração

O crítico viajou a convite da 66ª Semana Internacional de Cine de Valladolid

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Daniel Oliveira

Daniel Oliveira é mestrando em Cinema pela Universidade da Beira Interior e crítico autoexilado, filiado à Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) e à Fipresci. Aguarda ansiosamente o meteoro, ou o reboot da civilização dirigido por alguém que não seja homem, branco e/ou hétero.
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