Crítica | Festival

Titane

Cicatrizes de metal

(Titane, FRA, BEL, 2021)
Nota  
  • Gênero: Terror
  • Direção: Julia Ducournau
  • Roteiro: Julia Ducournau, Jacques Akchoti, Simonetta Greggio, Jean-Christophe Bouzy
  • Elenco: Vincent Lindon, Agathe Rousselle, Garance Marillier, Laïs Salameh, Mara Cisse, Marin Judas, Diong-Kéba Tacu, Myriem Akheddiou, Bertrand Bonello, Céline Carrère, Adèle Guigue
  • Duração: 108 minutos

A relação da criatura com um universo que a diminui, diferencia e exclui invariavelmente é marcada pela dor, pela raiva e pela frustração. Daí vêm sentimentos como a tristeza e o medo, e podem vir atos, como a violência, contra si e contra o outro. É uma dinâmica nociva, mas infinita enquanto a opressão for a base das relações. O ser mulher neste mundo está dentro do jogo de determinações, privações e provações diárias desde o início da vida. O que gostar, como fazer, onde ir. Sofrer calada e fingir força para conseguir. Fazer o triplo ou o quádruplo para ter direito a um espaço. Ser menos humana para ser mais perfeita. Nesse universo de perversões reais ditas em voz alta ou executadas inconscientemente, Julia Ducournau encontrou um lugar para fazer a sua alegoria. Óbvio no objeto escolhido e aberto a várias interpretações, Titane, seu segunda longa-metragem, vai fundo na relação com a toxicidade e nas marcas e cicatrizes que ela trazem.

A protagonista é Alexia e, desde os primeiros momentos, a assistimos numa relação nociva com o masculino. A figura paterna (aqui vivido pelo diretor Bertrand Bonello), símbolo maior do gênero para qualquer menina que tenha essa relação, é apresentada destacando comportamentos característicos, a busca por elementos comuns, a demanda por atenção, a provocação. Do óbvio e literal, aqueles esmaecidos minutos de apresentação freudiana de conflito se transformam após o primeiro vermelho de sangue, ainda que este seja discreto, que aparece na tela. Parte-se então para a metáfora, a agressão vira uma placa de titânio na cabeça e a pequena Alexia (Adèle Guigue), que corre para abraçar e beijar o carro, vira uma mulher (Agathe Rousselle) que trabalha em salões de automóvel, sensualizando para apresentar máquinas a um público de machos hétero top.

Titane
Cecilia Barroso | Cenas de Cinema Cortesia Mostra SP

Titane se calca nessa representação, na definição da imagem de um objeto que, desde sua criação, antes até dos motores existirem, está relacionado ao homem. Os carros têm uma conotação de virilidade e estão nesse lugar de força e poder que, no imaginário popular e na estrutura patriarcal, está relacionada a um gênero, sendo o vínculo ao outro combatido, se não frontalmente em entrelinhas e nas pequenas e “inocentes” ações cotidianas. O roteiro de Titane, que conta com a consultoria de Jacques Akchoti, Simonetta Greggio, Jean-Christophe Bouzy, traz isso, mas não em primeiro plano, isso está, sim, nas manobras sensuais de Alexis para que se vendam novos e estilizados modelos ou que demonstrem sua potência após situações de perigo extremo, em ambientes em que a arte faz questão de ressaltar a transpiração quase nojenta de testosterona, mas Ducournau vai além, ela transforma o objeto em algoz.

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Os carros de Titane são os seres, são os homens nocivos e é com eles que a protagonista estabelece a relação tóxica. A diretora francesa é habilidosa na construção de elementos fantásticos, na elaboração do clima de horror e na criação de monstros. Além destes, sua protagonista é um ser monstruoso forjado pelas circunstâncias, que vai transformando-se ao poucos tomada por elementos não humanos, marcas de violências com as quais mais consegue lidar e das quais não consegue se distanciar, da placa que marca a agressão que leva na cabeça e o abuso que agora carrega no ventre.

Titane
Cecilia Barroso | Cenas de Cinema Cortesia Mostra SP

Em todos os eventos, os homens-carro. Longe deles, mas sempre com eles dentro de si, há alguém que não sabe como existir. Se o ciclo é bem construído até então, o longa encontra alguma dificuldade para seguir, embora Ducournau esteja confortável na rápida incursão gore de sua personagem. Há um gap até o literal fechar a porta e a reconfiguração para o recomeço. E é corajoso que o filme busque esse novo ritmo, encontrando um outro ambiente de toxicidade, onde a masculinidade vai dividir polos, mas a quebra compromete um pouco a experiência. Vincent, vivido por Vincent Lindon, chega até Alexia como o homem-homem, alguém marcado pela culpa e também com suas cicatrizes. Do outro lado desse jogo, ele é condicionado a viver em um mundo onde a virilidade e a potência são imprescindíveis. Outro ícone óbvio, é bombeiro. Sendo o que não consegue mais ser, mas finge, ele é o que ela precisa. Na relação de faz de conta que estabelecem, todos fingindo ser o que não são, é como um remédio para que sigam existindo nesse mundo, mesmo que isso acabe e o futuro traga o mesmo.

Titane é uma pancada de traumas e dores que se encontram, uma sucessão de abusos e violências que choca por suas cores e excessos, mas mais porque existe num mundo que determina lugares, exalta e pune indistintamente, e onde a falta de tensões e a existência de submissões acontece sem que se compreenda logicamente, porque o que existe já está arraigado na alma e é perpetuado por gerações.

Titane
Cecilia Barroso | Cenas de Cinema Cortesia Mostra SP

Comparações descabidas

Faz parte do cinema, da cinefilia e da crítica fazer conexão entre filmes. Natural que com dois filmes que tivessem relações com carros em seus plots, lançados no mesmo ano, ambos com carreiras exitosas nos festivais mundo afora, chovessem comparações. Falo de Carro Rei, ótimo longa-metragem dirigido pela pernambucana Renata Pinheiro. Sim, ambos os filmes tem carros. Sim, há uma relação entre carros e humanos. Sim, há sexo entre carro e humana. Pronto, a comparação deve parar por aí. Deve ser tentador demais para alguns, em um universo dominado por homens, comparar o trabalho de duas mulheres e dizer que um é inferior ao outro, mas os dois filmes são totalmente distintos.

Se for para falar de contexto, embora no universo do fantástico, a ficção científica de Pinheiro aborda um lado social político coletivo, enquanto o horror de Ducournau é muito mais introspectivo e pessoal. Tecnicamente, mesmo as máquinas falantes e os mecânicos dançantes de Caruaru estão marcados pelo naturalismo do nosso cinema, e o cotidiano de Alexia e Vincent pelo novo cinema francês, além disso, ambos os filmes são tão óbvios na autoria, que mesmo que se encontrem referências de gênero, elas nunca serão suficientes para suplantar isso.

Um grande momento
Dançando no caminhão

[45ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo]

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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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