Crítica | Festival

A Garota e a Aranha

O vazio do mecânico

(Das Mädchen und die Spinne, SUI, 2021)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Ramon Zürcher, Silvan Zürcher
  • Roteiro: Ramon Zürcher, Silvan Zürcher
  • Elenco: Henriette Confurius, Liliane Amuat, Ursina Lardi, Flurin Giger, André Hennicke, Ivan Georgiev, Dagna Litzenberger-Vinet, Lea Draeger, Sabine Timoteo, Birte Schnöink
  • Duração: 99 minutos

Os processos de partida e despedida em um filme sempre são mais evidenciados no cinema, que dedica uma considerável parcela imagética a essa movimentação de caráter emocional. Particularmente, não consigo lidar com o acesso às perdas que tal processo faz entranhar, logo A Garota e a Aranha, longa suíço premiado na última edição do Festival de Berlim e em cartaz na 45ª Mostra SP, é um filme que tende a emocionar pelo que de intrínseco trás esse projeto, ainda que de forma pouco óbvia. Pouco é conjecturado a respeito em sua narrativa, mas ao mesmo tempo está tudo em cena, representado pelos processos inseridos na criação de seus planos.

Dirigido pelos gêmeos Ramon e Silvan Zürcher, o filme de tom minimalista é uma grande encenação a respeito da chegada a um novo lugar, o que automaticamente significa também a partida para outro grupo de elementos e personagens. Enquanto se engancha na tentativa de examinar espaços sendo completados com certo cuidado, o filme consegue extrair brilho de sua atmosfera pouco apresentada anteriormente, e que aqui coloca o banal no centro da investigação. Esse é o cuidado que seus diretores pretendem dar ao público, situá-los em uma ideia específica social (os processos de partida) atrelando-os ao banal (uma mudança em curso).

A Garota e a Aranha
Cecilia Barroso | Cenas de Cinema Cortesia Mostra SP

De mansinho, durante as tarefas banais atreladas ao contexto do filme, a família que participa desse processo (e mais especificamente sua protagonista) revela as minúcias represadas de suas personalidades, através de sinuosas sutilezas, como o próprio lidar com um aracnídeo que se apresenta em determinada cena. O filme evoca entre seus afazeres mundanos e metódicos um distanciamento do artifício, porque tudo ali é demasiado humano para propor qualquer arroubo diferenciado. Ao fundo, uma britadeira quer irromper da placidez, como a dizer que a fúria precisa se estabelecer, mesmo que não queiramos; é a partir do horror que o humano consegue se sobressair e conquistar espaços.

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Os diálogos enviesados se colocam também no lugar limítrofe da crueza simplória, avançando para as raias de uma ilusão poética do cotidiano. É a repetição de movimentos básicos dentro do quadro que transformam nosso olhar: raspar, desmontar, pintar, criar, e entre as ações, o diálogo narrativo que não revela nada para além do que já é gráfico. Cada elemento humano em cena é provido de pensamento analítico, ainda que suas intenções caminhem pela banalidade do vazio e se sinta confortável nesse lugar, que não consegue criar a organicidade desejada. Sua metaforização não consegue alcançar voos radicais porque há a aceitação desse mesmo vazio enquanto vetor.

A Garota e a Aranha
Cecilia Barroso | Cenas de Cinema Cortesia Mostra SP

O fascínio que emerge de A Garota e a Aranha é compreendido toda vez em que o elemento agudo tira de concentração a narrativa plácida em questão. É quando a aranha os distrai, quando o processo de quebrar pedras atiça a zona de aceitação desse banal, que percebemos que o filme abraça esse lugar de desassossego dentro do comum naturalizado. Porque muita coisa acontece na entrelinha dos fatos e no extracampo das imagens, que acaba por estabelecer essa dinâmica do jogo cênico tradicional para evidenciar a ausência do “falso”, que é enfatizado pela constante manutenção do comum. Em um universo sem espaço para o artificial, não estaria aí a maior prova do irreal?

Um grande momento
Uma garota e seu neon

[45ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo]

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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