Crítica | Festival

Deserto Particular

De volta ao central

(Deserto Particular, BRA, POR, 2021)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Aly Muritiba
  • Roteiro: Henrique Dos Santos, Aly Muritiba
  • Elenco: Antonio Saboia, Pedro Fasanaro, Luthero Almeida, Thomas Aquino, Laila Garin, Sandro Guerra, Otavio Linhares, Zezita Matos, Cynthia Senek
  • Duração: 125 minutos

Me parece quase inevitável não enxergar um renascimento de Brasil na relação que Aly Muritiba constrói com suas imagens, a partir de uma leitura possível para o hoje do clássico de Walter Salles, aquele onde Dora e Josué desbravavam o país em busca de um afeto que sempre esteve com eles. O olhar de fatias desfavorecidas para o amor, embrutecidas pela ausência, emerge de Central do Brasil para Deserto Particular como, agora, uma resposta aos encontros, a empatia e às novas oportunidades exatamente recriando os laços através da terra mais profunda, que acaba por irrigar o que temos de mais árido, uma humilde capacidade ressurgimento em meio ao desconhecido. Parte de muitos lugares o encontro de Muritiba com essa gênese da delicadeza.

O diretor parece encontrar o que buscou ao longo de tantos filmes, em um processo que revela seu Daniel, mas também a si mesmo de maneira quase metalinguística. Muritiba reconfigura uma carreira ao encontrar, enfim, seu cume de elevação, sua carga mais ambiciosa de leitura das origens que não podemos perder, e que ele reflete de maneira poderosa. Essa chave de leitura, que desbrava o seu próprio deserto, é apenas uma camada extra das entrelinhas narrativas. Em primeiro plano o que está exposto é um Brasil mais urgente que qualquer umbigo, que tenta desgarrar sua inadequação para explorar novos recortes emocionais, que possibilitem mais do que enxergar o outro, mas principalmente ver a si mesmo sob novo prisma.

Deserto Particular
Cortesia Mostra SP

O roteiro de Deserto Particular, escrito Muritiba e Henrique dos Santos a partir do encontro entre eles, agrega um sem número de visões, que vão de um retrato com a única saída possível para um país em conflito polarizado, até o íntimo psicológico de uma dupla de personagens muito bem desenvolvidos, que se amplificam quando refletidos. É um filme dividido entre dois motes, quase com tempos e disponibilidades distintas, em abordagens que tornam a fruição de uma e de outra mais independentes, ao mesmo tempo em que esse complemento enfatiza as qualidades de seus desenhos e eleva o todo.

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Uma nova estrutura de Brasil vem apitando no horizonte, em meio a falsos mitos, falcatruas governamentais e extrema direita galopante. O que o novo e mais bem sucedido de Muritiba, nossa escolha como representante ao Oscar de filme internacional do próximo ano, diz é que a compreensão, o olhar empático, e o diretor não apenas traduz isso em mensagem, mas principalmente em imagens, que assumem uma composição conjunta desse olhar. Entendemos as diferenças, que não são facilmente assimiladas, mas o longa parte da fuga do quadro (quando a irmã de Daniel revela pra ele seu relacionamento) para a exposição em plano (quando ele investe na paixão).

Deserto Particular
Cortesia Mostra SP

Esse mergulho no lado mais profundo da nação, tanto geograficamente quanto em seus pré-conceitos, promove o reencontro do nosso cinema com essa tradição de rasgar as fundações do país em suas imagens (captadas pelo Luis Armando Arteaga, de O Vulcão Ixcanul) e em sua ideia de Estado, reconstituindo desde as cores saturadas do cinza urbano monocromático pelo terroso rural com seu eventuais vermelho e azul, até reler o povo na atualidade, que ainda se arrasta imerso em ignorância, mas que pode ser exposto em suas fragilidades e culpas a qualquer momento. O lugar por onde Daniel precisa correr para se reencontrar é olhando constantemente pra dentro, de si, do outro, do país.

Muritiba ainda sofistica seu material com esses dois lados de uma mesma história onde cabem as subjetividades de cada tomo, mas vai além, e rebusca sua narrativa com a troca de função narrativa; passamos Deserto Particular atentando para um olhar e uma verdade, quando todo o jogo é transferido para o outro lado, apresentando ao público duas jornadas de libertação distintas, unidas por profunda atualidade emocional. Daniel e Robson são um amálgama do que melhor podemos refletir enquanto sociedade, que cumprem papel de extrema coragem em tempos divisórios: promover o desarmamento, teórico e prático, para que possamos acessar nossa humanidade. É um grande retorno ao que de mais singelo e vibrante podemos ser.

Um grande momento
Daniel e Fernando na barca

[45ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo]

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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