Crítica | Streaming

Céu Vermelho-Sangue

Desencontro no ar

(Blood Red Sky, ALE, EUA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Terror
  • Direção: Peter Thorwarth
  • Roteiro: Stefan Holtz, Peter Thorwarth
  • Elenco: Peri Baumeister, Carl Anton Koch, Alexander Scheer, Kais Setti, Gordon Brown, Dominic Purcell, Graham McTavish, Kai Ivo Baulitz, Roland Møller, Chidi Ajufo
  • Duração: 121 minutos

A muitos pés de altitude, fechado em uma caixa metálica pressurizada, não há nada que se possa fazer quando a ameaça surge. Qualquer tipo de pane é motivo para desespero, vide Vivos, e se eleva à enésima potência em casos de outras intervenções humanas, como no caso de sequestros e bombas, que estão na angústia de filmes como o trágico Voo 93 ou o frenético Sem Escalas, respectivamente. E há casos mais inusitados, como Serpentes à Bordos, Tubarões Voadores ou a estreia da Netflix, Céu Vermelho-Sangue. Dos três últimos, sem dúvida, o que mais quer se levar a sério.

É aí que está o maior problema do longa alemão de Peter Thorwarth, diretor dedicado ao cinema pegado de ação e conhecido por ser um dos roteiristas responsáveis pela adaptação de A Onda. Seu filme de terror maternal une medo real ao nonsense, com a história de uma mãe que tenta a todo custo controlar o seu vampirismo para poder conviver em sociedade e, principalmente, com o filho. Ela tem que abrir mão de tudo para salvar o pequeno quando o avião é tomado por sequestradores. Há, portanto, espaço para um lado sentimental, que vai falar de laços familiares — e até parece entrar por um caminho alegórico da mãe sozinha, mas desiste — e outro que só quer saber da ação.

Céu Vermelho Sangue
© Netflix

Consciente da temperatura — estética e da ação –, profundidade e ritmo de suas duas subtramas, ele decide intercala-las, deixando para lá a linearidade temporal. A ideia não é de toda má e, embora haja um cuidado notório em fazer essa separação de tempos e a marcação da história, falta cuidado e comedimento. É difícil definir se a escolha não funciona pela inadequação da ideia, pelo inchaço das passagens, pela quebra de ritmo ou por um combo de todas essas alternativas. Thorwarth é daqueles que quer falar tudo e acaba falando demais, o que já está posto é mostrado várias vezes e não há nada que não precise ser mostrado até o seu último minuto. Não à toa temos que ver um filme de terror de vampiro a bordo de um avião com duas horas de duração, algo que não faz o menor sentido. 

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O roteiro sente a diferença dos tempos também e parece que não tem muito interesse em nenhum personagem que não Nadja, sua protagonista vampira, e, vá lá, o pequeno Elias, numa dedicação errática e muitas vezes inadequada à idade. Eightball, o grande vilão, é uma caricatura de outras caricaturas do cinema de ação. Aliás, quando adentra na aeronave, tirando o fator “há um ser mitológico entre nós”, não há nada em Céu Vermelho-Sangue que já não tenha sido várias vezes no cinema, o que não é um problema, inclusive traz alguma tensão e bons momentos ao filmes.

Céu Vermelho-Sangue
© Netflix

Mas o que fica mesmo é a repetição, o ir e voltar ao mesmo ponto e o final arrastado e prolongado além da conta. Há um clichê no cinema de sequestro nos ares, fortalecido com o 9 de setembro, que tinha que estar presente, assim como aquele forçar a barra emocional — não podemos esquecer que existe uma criança aqui — que se descola do filme, querendo criar um grande respiro, mas só encontra espectadores cansados. 

Infelizmente, Céu Vermelho-Sangue não consegue se aproveitar da originalidade de sua história, ou de suas histórias. Não toma o interessante caminho da mãe solo que está negando a própria natureza e procurando uma solução para exercer sua relação maternal, nem se entrega totalmente à adrenalina da ação inconsequente que só quer dinheiro, sangue e explodir umas coisas. É um filme que está sempre no meio do caminho, ou talvez nem chegue lá. Ainda que tente correr para um lado e para o outro, não consegue alcançar o ponto.

Um grande momento
Na cozinha

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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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