Crítica | Festival

Sombra

(Sombra, BRA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Experimental
  • Direção: João Pedro Faro
  • Roteiro: João Pedro Faro
  • Duração: 72 minutos

Quem acompanha o trabalho de João Pedro Faro como crítico vai reconhecer uma série de suas preferências em Sombra, seu primeiro longa-metragem. Saltam aos olhos imediatamente as referências a um cinema brasileiro erótico e popular (na cena inicial) e a opção por tatear um espírito niilista e melancólico de certa juventude contemporânea, da qual o diretor faz parte, mas que remete principalmente a alguns filmes do leste asiático dos anos 1980 e 1990, como Rebeldes do Deus Neon (1992), de Tsai Ming-liang, e Não Brinque com Fogo (1980), de Tsui Hark. Do primeiro, os protagonistas errantes e mergulhados numa apatia manifesta no ritmo lento da narrativa. Do segundo, a fúria destrutiva de jovens desencantados com o mundo – ainda que em Sombra essa fúria se manifeste mais nas histórias contadas em off do que nas imagens realmente concretizadas. Faz bem estar na companhia de obras-primas como essas. 

Mas o filme de Faro tem um homônimo francês, dirigido por Philippe Grandrieux no final dos anos 1990, com o qual dialoga muito frontalmente num aspecto formal – a conferir se o diretor brasileiro conhece o Sombra de Grandrieux, o que, no fim das contas, pouco importa. Se Tsai aposta em enquadramentos mais rigorosos e no aproveitamento máximo da duração dos planos, Grandrieux mergulha sua câmera com selvageria no fluxo do mundo, recusando a mise-en-scène organizada dos cinemas modernos taiwanês e honconguês. A narrativa se dilui quase completamente num grande bloco de imagens e sons caóticos, mais geradores de sensações (quase sempre incômodas) que propriamente elementos constituintes de uma narrativa encadeada. 

Sombra (2021)
Cecilia Barroso | Cenas de Cinema Cortesia Festival Ecrã

Faro segue por um caminho parecido, principalmente quando leva seus dois protagonistas para as ruas do Rio de Janeiro, à noite. A cidade e os rapazes (interpretados por Miguel Clark e Daniel Brito) se tornam partes, em vários momentos indistinguíveis, de um mesmo todo. Fragmentos de concreto, natureza, corpos, insetos, ruídos, embaralhados por uma montagem e uma mise-en-scène sensoriais, pouco (quase nada) preocupadas com o encadeamento lógico de planos. Imagens dos personagens ganham tanta importância quanto as de uma barata no chão ou de um pedaço indistinto de uma rua carioca qualquer.  Ainda assim, o diretor consegue transitar bem para o aproveitamento do fiapo de narrativa de Sombra, criando brechas para uma leitura sobre o surgimento de laços afetivos em meio à melancolia urbana contemporânea.

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Se poucas palavras são trocadas entre os protagonistas, o tédio compartilhado também comunica, o olhar desencantado e propenso à violência aleatória une. Não é à toa que o filme termina com um abraço. Essa busca por algo em meio ao nada, ao absurdo absoluto da contemporaneidade e às angústias próprias de um momento da vida, surge sem moralismos, sem discursos didaticamente articulados, sem encheção de saco. Só cinema, livre, jovem, descompromissado.

Um grande momento
O espancamento sob o outdoor de uma família feliz

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Wallace Andrioli

Wallace Andrioli é crítico de cinema e historiador, apaixonado pelos filmes de Alfred Hitchcock, Billy Wilder, Clint Eastwood e Edward Yang.
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