Críticas

Um Gato Sonha com o Norte

Cortes para a conexão

(Un Chat Rêve Du Nord, FRA, 2020)
Nota  
  • Gênero: Experimental
  • Direção: Diogo Oliveira
  • Roteiro: Diogo Oliveira
  • Elenco: Carolina Alfradique, Vincent Pouydesseau, Luciana Araujo, Esteban Anavitarte, Florencia Dansilio, Florencia Lindner, Ines Dahn, Manuel Rodriguez
  • Duração: 71 minutos

Um gatilho é acionado em ‘Um Gato Sonha com o Norte’ a partir do momento em que uma personagem entra em cena, a vizinha de uma casa que abriga um grupo de jovens residentes de uma oficina teatral. A partir dessa chegada, o que parecia um documentário se transforma em performance explícita; vemos sua chegada por múltiplos ângulos, em encenações diferentes, rodados em momentos isolados um do outro. O jogo cênico não se restringe ao seu tema, é parte integrante da obra em si e se configura como um exercício de estrutura controlada, orgânicas, porém com sua liberdade emoldurada para não escapar. 

O diretor Diogo Oliveira vem de ‘Os Pássaros estão Distraídos’, uma experiência anterior radical em seu naturalismo, onde a encenação se fazia presente ao mesmo tempo onde havia uma tentativa de diluir seu arcabouço em documento. Aqui a busca vai por retorcer seus códigos estruturais, sem forçar a presença do artifício ou pelo contrário, até negando a frontalidade do mesmo, mas que parte de um conceito da criação artística, incorporando os alicerces do teatro em uma narrativa que já embaralha a encenação para nos conduzir justamente pela arte dramática. 

Assim que a ideia do teatro sai do conteúdo e chega também à forma, o filme refaz suas impressões para que as relações flagradas em instantâneos curtos de assimilação saiam da possibilidade estanque do real para abraçar em paralelo a possibilidade do ficcional, ampliando o escopo de sua matriz. A partir do momento em que o concreto visto se capacita como ‘faz de conta’, e o olhar do espectador passa a ressignificar cada atitude e cada gesto, cada contato pode representar tanto uma fagulha do verídico quanto um jogo de máscaras para adultos. 

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A mise-en-scène busca o detalhamento de cada personagem, que crie uma intimidade daqueles seres que atuam com o espectador. São mãos, pés, sotaques e vozes que variam entre o francês, o espanhol e o português, e as suas curvas interativas uns com os outros. Se essa conexão com o público funciona em maior ou menor medida, é uma questão puramente subjetiva, mas o jogo de Oliveira não agrega valores empáticos suficientes para que sua encenação seja analisada sem que observemos sua desconexão, sua falta de foco; ‘Um Gato Sonha com o Norte’ emperra nas possibilidades. 

Não é o caso do que faltava ao projeto, mas provavelmente do que sobrava. No lugar de fazer uma escolha e apostar em uma meta para levar até um objetivo, o filme observa todas as opções possíveis, belisca a maioria e segue sem cravar um propósito. É um quadro definitivamente instigante de olhar e assistir, onde nos identificamos com momentos esparsos, mas que não conseguem se agrupar para formar uma ideia concisa – ou que essa ideia não tenha sido desenvolvida a contento em outras narrativas no passado, como o ‘Moscou’ de Eduardo Coutinho.

Orfeu, o personagem-título, fica alheio ao que aconteceu durante aquela semana de ensaios e trocas porque não conseguiu se apegar a ninguém, é muito pouco tempo para um gato se conectar com um grupo grande de pessoas que se alocam em sua casa, de repente. Assim é como se sente o espectador de ‘Um Gato Sonha com o Norte’, com genuína vontade de interação com aquele fascinante universo de afazeres artísticos, mas Oliveira corta continuamente nossa relação com o que filma, nos distanciando do objeto e criando uma cratera com sua produção. 

Um grande momento:

A chegada da vizinha 

[5º Festival Ecrã]

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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