Crítica | Cinema

Chamas da Vingança

Uma trilha, e nada mais

(Firestarter, EUA, 2022)
Nota  
  • Gênero: Terror
  • Direção: Keith Thomas
  • Roteiro: Scott Teems
  • Elenco: Zac Efron, Ryan Kiera Armstrong, Sydney Lemmon, Michael Greyeyes, Gloria Reuben, John Beasley, Kurtwood Smith
  • Duração: 94 minutos

Chamas da Vingança, nova adaptação da obra de Stephen King a estrear hoje nos cinemas, parte de uma possibilidade de leitura que seria mais do que óbvia. O despertar feminino na adolescência, a descoberta da feminilidade, a primeira menstruação (assunto ainda tabu no cinema, sabe-se lá o porquê), isso tudo poderia ser a pauta da produção. Tematicamente, isso é entregue de graça pela premissa e nem precisava investigar mais nada, teríamos aí um mote que King já tinha explorado de alguma forma em Carrie, a Estranha, uma obra base superior que rendeu ao menos um clássico – e várias bobagens. Essa nova versão observa essa possibilidade inicial de plot metafórico e simplesmente ignora, preferindo construir um filme de poucos atrativos, na prática.

Na condução do projeto, Keith Thomas. Na adaptação do livro, Scott Teems – o cara por trás de Halloween Kills e do próximo O Exorcista. Mas, pra onde olhamos, Chamas da Vingança cheira a Jason Blum, mas não o cara que nos deu Corra!, mas um produtor-padrão qualquer de Hollywood interessado em dinheiro fácil. O mais complexo é entender que esses dois caras são a mesma pessoa, e de ambos saíram as mesmas ideias. Não parece ter um pensamento minimamente criativo em torno da realização do filme, e sim uma sede por grana absurda, que tira qualquer personalidade da obra. Soa tudo como um produto, que encontramos na prateleira de promoção do supermercado, mais precisamente naquela área informada a respeito da validade, prestes a vencer.

Chamas da Vingança
Universal Studios

A historinha, já protagonizada por uma Drew Barrymore mal saída de E.T., mostra que experimentos do governo realizados nos pais – que os deixaram com sequelas psíquicas, emocionais e comportamentais – geraram uma filha com o poder da piromania, descontrolada devido à tenra idade. Os mesmos responsáveis pelas experiências do passado tomam ciência da sua existência e, obviamente, tentam caçar a menina para transformá-la em arma, afinal estamos falando de Estados Unidos da América, né? A premissa, como podemos ver, é das mais interessantes e sugeriria um filme ao menos tenso, cercado de adrenalina e alguns efeitos especiais que, hoje, poderiam acarretar cenas divertidas. Ledo engano nosso, que ficaremos na vontade do que deveria ser o mais simples no projeto.

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A dupla protagonista é definitivamente fraca. Zac Efron nem é o pior ator do mundo, como muitos gostam de apregoar, e a jovem Ryan Keira Armstrong tem um trabalho que não é fácil mesmo, segurar um longa inteiro na base de uma sensibilidade abstrata. Nenhum dos dois consegue se inserir naquele contexto, e o que deveria ser uma base de apoio, se torna mais um elo fraco de uma produção onde sobram problemas. Nem Efron consegue transmitir a gama de fragilidades que seu personagem pedia, nem Armstrong é madura para segurar tantas nuances, que se perdem pelo caminho. Sem o suporte de seus protagonistas, o restante do elenco não consegue sequer mostrar serviço.

Chamas da Vingança
Universal Studios

Além de toda falta de interesse que o filme gera, uma experiência cansativa e nada atraente, que gera risos de constrangimento em diversos momentos, Chamas da Vingança, visualmente, é de uma pobreza ímpar. Eu chego a dizer que é quase criminoso que se tenham realizado uma produção tão esteticamente feia a respeito de um elemento tão fascinante quanto o fogo, que qualquer mínimo esforço consegue transformar um plano simples em algo extraordinário. Pois aqui, o fogo – que é praticamente um co-protagonista da história – é relegado ao coadjuvantismo, restando a ele momentos chaves onde é muito mal fotografado. Talvez o fato de quase sempre sua ação ser construída na base do CGI justifique tamanha feiura.

Sabe-se lá como, um projeto tão fuleiro quanto esse conseguiu John Carpenter para compor sua trilha sonora, e aí temos o bizarro caso do filme fraco com composições belíssimas, nada dignas das imagens que ilustra. Quando os acordes compostos por um gênio, das pessoas que melhor adaptou King (alguém lembra da beleza que é Christine, o Carro Assassino?) entram em cena, o desejo real do espectador é fechar os olhos e manter somente o som na memória. Incompreensível que, mesmo com uma base tão boa – ainda que parecida com outras composições suas – o filme não consiga empolgar em momento algum, deixando uma sensação constante de que teria sido melhor acessar ao Spotify para conferir seu único ponto de grandeza. Mas a dúvida sobre o porquê Carpenter aceitou o serviço permanece ao fim da sessão.

Um grande momento
Charlie ataca os camuflados

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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