Crítica | Streaming

Cidade de Gelo

Gelado só no nome

(Серебряные коньки, RUS, 2020)
Nota  
  • Gênero: Romance
  • Direção: Michael Lockshin
  • Roteiro: Roman Kantor
  • Elenco: Fedor Fedotov, Sonya Priss, Yuriy Borisov, Kirill Zaytsev, Aleksey Guskov, Severija Janusauskaite, Cathy Belton, Margarita Adaeva, Mikhail Shelomentsev, Bato Shoinjonov, Aleksandra Revenko, Timofey Tribuntsev
  • Duração: 130 minutos

O velho conto do jovem menino pobre que se apaixona pela bela menina rica não cansa de render histórias ao redor do mundo, e quem quiser pode se deliciar com uma versão bem acabada e bonita de se ver na Netflix. Cidade de Gelo volta à São Petersburgo na virada do século passado, e, no preparativo das festas de fim de ano, nos apresenta a Matvey, um entregador que acabara de perder o emprego, e Alice, uma aristocrata progressista que sonha em entrar na faculdade, ou aqueles que estarão em polos opostos e cairão de amor um pelo outro.

Antes de qualquer coisa, é mesmo o visual estonteante, que se aproveita dos grandes palácios, das luzes e da beleza dos canais congelados pelo inverno, que chama a atenção para o longa russo assinado por Michael Lockshin. Há muito cuidado com a produção e a reconstituição de época, com os figurinos de Tatyana Patrakhaltseva e a arte de Jamie Rencen. Desde o macro, com grandes bailes, feiras e esconderijos, até os pequenos detalhes, como as jóias, a decoração da doceria — numa abertura ótima — e espaços mínimos, tudo recebe uma dedicação especial.

Cidade de Gelo

Se a beleza atrai, a ação prende. Com sua pegada “Oliver Twist” moderna, Cidade de Gelo aposta na patinação nas ruas congeladas para criar sequências de ação divertidas. Com muitos efeitos especiais, a gangue do gatuno Alex, que Matvey passa a integrar depois de perder o emprego, são concatenadas, cheias de adrenalina e, mesmo que estejam naquele usual lugar de desconforto ético, funcionam muito bem. O roteiro de Roman Kantor não tenta inventar, e estabelece relações básicas. Como outros com o mesmo tema, tem poucos personagens que merecem muita atenção além dos seus protagonistas.

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Alice tem direito à sua trama individual, a vontade de viver uma vida completamente diferente daquela em seu palacete, cercada de luxo e limitações, assim como Matvey, que quer salvar a vida do pai, e, óbvio, aquela que os dois têm comum, que se constrói com o encontro e as tentativas dos personagens de ficarem juntos a despeito de todos os obstáculos. Entre estes está o duque Arkadiy, que, interessado na jovem, é também o chefe de polícia que promete acabar com os batedores de carteira das ruas geladas.

Cidade de Gelo

Se nada do que se vê, e nem mesmo o jeito como os eventos se sucedem parece ser original, Kantor, mesmo que sem pesar a mão, faz incursões por outras questões, como alguns bons comentários sobre a construção da aristocracia russa, levantamentos pré-revolução, machismo, o papel das mulheres na sociedade e até mesmo corrupção. Sem falar no bem-humorado no lugar onde coloca o seu antagonista, falando frases ridículas, exibindo seus dotes artísticos no baile, ou mesmo invadindo a estação vestido de Príncipe Encantado no seu cavalo branco. E há uma habilidade em trabalhar com a tensão, que Lockshin compreende, e Mariya Likhachyova e Dmitriy Slobtsov seguram na edição.

Assim, Cidade de Gelo é um daqueles filmes delicinhas de se ver. Com um elenco carismático, bonito e divertido é um bom passatempo, e ainda tem ótimas sequências de perseguição e de ação para a gente torcer pelos casalzinho. Nada que vá durar muito tempo na vida de ninguém, claro, mas vai ficar o tempo que precisa para trazer aquele sorriso para o rosto.

Um grande momento
A fuga na feira

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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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