“Chegou a hora de constatar, declarar e demonstrar que os filmes brasileiros asseguram, hoje, ao cinema nacional, um nível igual ao da literatura, música, artes plásticas, teatro e arquitetura do Brasil moderno. E também reconhecer, depois da crítica internacional, que o cinema brasileiro é, atualmente, um dos mais vivos e estimulantes do mundo. A tomada de consciência desses fatos pela elites políticas e administrativa do país terá como harmoniosa conseqüência a execução das medidas indispensáveis à continuidade e ou desenvolvimento do cinema brasileiro.”

Este era o texto de apresentação de abertura do programa da Semana do Cinema Brasileiro, que aconteceu em novembro de 1965, e ganhou, tempos depois, o nome de Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Houve anos em que o evento não pôde acontecer por conta do golpe militar, períodos de poucos filmes com o desmonte do cinema nacional por Fernando Collor de Mello, programações nem sempre tão boas, mas o festival seguiu vivo e chega agora a sua 51ª edição. Mudanças aconteceram com o passar desse tempo: novas linhas curatoriais, descentralização das exibições, criações de homenagens, duração, número de filmes, mostras paralelas, e a evidente e tempestiva busca por um equilíbrio mais evidente em questões de gênero, raça e etnia (algo que transcende o próprio festival e reflete todo um movimento atual do cinema brasileiro).

Mas o fato é que, mesmo depois de 50 edições, o festival segue sendo o mais importante evento voltado ao cinema brasileiro e continua atraindo a atenção não só daqueles que estão inseridos dentro do meio audiovisual, seja trabalhando diretamente na criação artística ou refletindo sobre ele, mas também da população local. A constatação chega fácil para qualquer pessoa que estivesse na sala lotada do Cine Brasília hoje (14).

O fervilhar político, uma das características do evento, contagiou a noite intercalando gritos empolgados de “Lula livre” e respostas tímidas de “Lula na cadeia”. A cerimônia de abertura, comandada pelos atores Letícia Sabatella e Chico Diaz, conseguiu unir saudosismo e perspectivas de futuro, saudando o passado e demonstrando os avanços.

Homenagens

Criada há dois anos, a Medalha Paulo Emílio Salles Gomes homenageia personalidades que se destacaram, ou ainda se destacam, no ensino, crítica e difusão do cinema brasileiro. Jean-Claude Bernardet e Nelson Pereira dos Santos foram os primeiros agraciados. Neste ano, a homenagem foi dupla. Walter Mello e Ismail Xavier. O primeiro destacou-se da difusão do cinema na capital, tendo participado da I Semana do Cinema Brasileiro e da fundação do Clube de Cinema de Brasília. O segundo é um dos mais importantes críticos do Brasil.

Walter Mello agradeceu à homenagem lembrando Paulo Emílio e falando da grande responsabilidade do festival, contou histórias sobre o Clube de Cinema e destacou a importância da Universidade de Brasília (UnB) na história do evento. Ismail Xavier relembrou que o festival, ao longo do tempo, foi um dos mais importantes lugares de discussão e encontro de pesquisadores do cinema. O crítico paranaense falou do quanto Paulo Emílio o influenciou tanto pessoal quanto profissionalmente.

Outra homenagem, esta acontecida pela primeira vez, foi a entrega do Prêmio Leila Diniz, a mulheres que vêm construindo o cinema nacional. A atriz Ítala Nandi e a montadora Cristina Amaral foram as primeiras a receberem o recém-criado prêmio, entregue pelas diretoras Juliana Rojas, Sabrina Fidalgo, Dácia Ibiapina e Naná Baptista.

Ítala Nandi falou sobre sua carreira no cinema, contou histórias do machismo que encontrou no passado e lembrou-se com carinho da amiga Leila Diniz. Cristina Amaral compartilhou sua homenagem com todas as mulheres que trabalham com cinema no Brasil e falou sobre a importância das mulheres que romperam com o patriarcado, possibilitando que muitas outras mulheres pudessem ser livres e exercer a sua liberdade. Ambas falaram também sobre a importância do cinema.

Houve ainda a entrega o Troféu ABCV, da Academia Brasiliense de Cinema e Vídeo aos professores da UnB, representados pela documentarista Dácia Ibiapina, e homenagem à atriz Beatriz Segall e ao técnico Roque Fritsch, falecidos recentemente.

Filmes

A noite de abertura, como não poderia deixar de ser em um festival como o de Brasília e em um momento como esse, voltou-se ao atual quadro político brasileiro. Com uma boa escolha da curadoria, o curta de resgate Imaginário, de Cristiano Burlan, e o longa Domingo, de Fellipe Barbosa e Clara Linhart.

Enquanto o primeiro filme, com imagens de arquivo da cinemateca suíça, resgata eventos históricos e reincidentes de golpes em narrações e discursos, o segundo vai buscar a representação da mudança social que hoje, em um novo momento de golpe, é uma narrativa que se tenta omitir e apagar.

O Festival

O Festival de Brasília do Cinema Brasileiro acontece até o dia 23 de setembro, no Cine Brasília e em várias regiões administrativas do DF. Além das mostras competitiva e paralelas, o evento oferece uma programação bem variada, com debates, oficinas e mais.

Para mais informações acesse o site do festival.

Fotos de Humberto Araújo