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Torre das Donzelas

(Torre das Donzelas, BRA, 2018)
Documentário
Direção: Susanna Lira
Roteiro: Susanna Lira
Duração: 97 min.
Nota: 6 ★★★★★★☆☆☆☆

Foi uma noite emocionante, uma sessão especial. Ao apresentar seu documentário, a diretora Susanna Lira chamou ao palco muitas das presas políticas que estavam presentes no Cine Brasília para a estreia. Torre das Donzelas é como ficou conhecido o presídio Tiradentes, para onde eram levadas as mulheres prisioneiras na época da ditadura militar.

O local esteve recentemente nas telonas com o curta Torre, de Nádia Mangolini, sobre os filhos de Virgílio Gomes da Silva, que iam visitar a mãe e só tinham contato com ela por um canudo de jornal que era balançado em uma fresta da janela. Num momento onde se questiona a existência da ditadura militar, que tantos torturou e matou, é fundamental que resgates como esse aconteçam, pois uma história esquecida é uma história pronta a se repetir.

O dispositivo utilizado por Lira para trazer à tona é interessantíssimo: ela entrou em contato com as ex-presas políticas e fez com que cada uma delas relembrasse o local onde ficaram detidas. A memória, transformada em plantas da torre, era desenhada em um quadro negro. Após isso, a diretora de arte Glauce Queiroz reconstituiu o lugar e as mulheres o visitaram.

O primeiro contato das “donzelas” com o espaço reconstituído é emocionante e a diretora explora isso nos olhares, gestos, no deslocamento de suas documentadas. E, mais importante, estimula o resgate de tudo aquilo que aconteceu durante o tempo em que estiveram presas.

Questões muito próprias das mulheres, como o sexismo sofrido e a sororidade estabelecida, são destacados nos relatos de várias delas. Algumas mais duras, outras mais emotivas, todas têm uma ligação muito forte com a torre: um local de ódio e tristeza que elas transformaram em um lugar de resistência. Como diz um dos depoimentos, o que essas mulheres fizeram foi tentar humanizar o desumano.

Outra coisa que vem com o filme é a desmistificação da imagem daquelas mulheres. Retratadas como temíveis terroristas, são apenas mulheres comuns, que acreditaram que precisavam lutar para defender a democracia. Em um caso mais impressionante, quem toma a tela é a ex-presidente Dilma Rousseff. A imagem repetida tantas vezes pela mídia de alguém que não sabe articular as palavras, com dificuldades de discurso, é completamente oposta àquela que se vê no filme. Sem querer aqui desculpar equívocos que ocorreram no governo da ex-presidenta, a clareza de ideias e a articulação levantam o questionamento quanto à construção de uma campanha de desmoralização que é muito anterior à reeleição e, obviamente, ao impeachment.

Com depoimentos impactantes, Torre das Donzelas cativa o espectador, mas faz algumas opções que não são tão atraentes assim. Uma delas é a tentativa de reconstituição, com jovens atrizes, de alguns dos momentos narrados. A quebra com a estabilidade narrativa, evidente, não é positiva. Outro incômodo vem com a montagem: há uma repetição cansativa a partir de certo ponto e o mal uso de um dos depoimentos mais fortes, dez minutos antes do filme acabar.

Ainda assim, mesmo que tenha problemas, Torre das Donzelas é um filme fundamental para se compreender um momento da história brasileira, um momento que tenta ser apagado, mas que deixou marcas profundas não só nessas mulheres, mas na própria constituição da nossa democracia.

Um Grande Momento:
“Nós ganhamos deles ali.”

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[51º Festival de Brasília]

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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