(Domingo, BRA, 2018)
Comédia
Direção: Fellipe Barbosa e Clara Linhart
Elenco: Ítala Nandi, Camila Morgado, Augusto Madeira, Martha Nowill, Michael Warhmann, Ismael Caneppele, Clemente Viscaíno, Silvana Silvia, Chay Sued
Roteiro: Lucas Paraizo
Duração: 88 min.
Nota: 5 ★★★★★☆☆☆☆☆

Abril de 2018. Luiz Inácio Lula da Silva é preso, condenado em uma das investigações da Operação Lava Jato, pela posse de um triplex que nunca esteve em seu nome. Até chegar a esse ponto, além de muitos e graves equívocos do partido que fundou e que esteve no poder por 16 anos, houve um trabalho intensivo de desconstrução da sua imagem e apagamento de suas ações. Em um país sacudido por eventos políticos externos e incoerentes, Lula tornou-se, para uns, a representação de tudo de mal que existe na terra, o homem que inventou a corrupção, e, para outros, uma espécie de mártir, o homem que pode salvar o Brasil.

Mas, por mais que se faça, fale e prenda, nada será capaz de reverter a mudança social que começou naquele 1° de janeiro de 2003, quando Lula tomou posse como presidente. É isso que está por trás de Domingo, longa-metragem de Fillipe Barbosa e Clara Linhart, escolhido para a abertura do 51° Festival de Brasília.

Em uma casa decadente, a burguesia também decadente se reúne para comemorar o primeiro dia do ano, daquele mesmo 2003. Em seu roteiro, Lucas Paraizo pulveriza relações quebradas e constrangimentos próprios e alheios. Somando a isso a aposta da dupla de diretores em uma atuação livre, os personagens acabam quase abandonados em determinações estereotipadas e em eventos por vezes repetitivos, por vezes aleatórios.

A construção da terceira geração do filme é insegura, destaca-se pelo maniqueísmo e não consegue encontrar o equilíbrio nas atuações. E isso acaba refletido, de certo modo e até pela organicidade que o método narrativo escolhido exige, em todo o elenco. A exceção está em Camila Morgado como Bete, dona absoluta de todas as cenas, e em Silvana Silvia, Augusto Madeira e Michael Wahrmann.

Há em Domingo (que na verdade foi uma quarta-feira) uma preocupação muito evidente em criar planos e impressionar com a lapidação do tempo, assim como a vontade de alcançar os eventos políticos que acontecem hoje no país, buscando a sua história. Ambas as intenções são alcançadas: esteticamente tem-se um produto belo, que sabe se aproveitar de referências, e politicamente há um texto bem delimitado, porém, o longa não encontra um meio de fugir ao artificialismo.

Pensando-se em contexto, há momentos muito interessantes, como a presença marcante de Inês, interpretada por Silvana, em embates não explícitos com os patrões; a ausência de moral e uma proposital fuga do debate político por aquelas pessoas que se prendem aos seus privilégios; a intervenção de um externo que contraria tudo aquilo e que ganha dimensão ao quando encontra a percepção de espectadores que já passaram por aquilo e reconhecem as mudanças, entre outros.

Mas, mesmo encontrando esse lugar na memória e na capacidade de projeção do explícito, o filme envereda pelo caminho do óbvio. Tudo é evidente demais, tudo tem que ser repetido várias vezes. Voltando à filmografia do próprio Fellipe Barbosa, é como se Domingo fosse uma versão estendida do churrasco das cotas de Casa Grande (bom filme também sobre a classe alta). O que no filme de 2014 chegava como um deslize na obviedade, aqui contamina toda obra.

Em um país com sérios problemas de memória e onde as pessoas teimam em não falar ou escutar sobre o passado, é importante que se resgate as mais importantes mudanças sociais pelas quais passou a sociedade brasileira nos últimos anos. É fundamental que se olhe para trás e se perceba o que aconteceu, dando os créditos a quem realmente mereça, sem ódios e adorações. Domingo tem todos os méritos por fazer isso, mas só resgatar não é o suficiente para que o resultado seja realmente um bom filme.

Um Grande Momento:
Camila Morgado, em todos os momentos.

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