Brasília, 51 anos do mais importante festival de cinema do Brasil. O 51º Festival de Brasília, seguindo a lógica de curadoria de Eduardo Valente e das diversificadas comissões de seleção nos últimos três anos, busca e encontra variedade de linguagens e narrativas e se estabelece na busca pela pluralidade. Em um ano coroado pela presença majoritária das mulheres, com cores de pele que se fazem cada vez mais presentes e incisivas nas telas, o que se tira do festival é democrático, tornando a tela de cinema um lugar de todos.

Os dez últimos dias foram de descobertas. Nem todas tão profundas, mas ainda assim importantes. Com um apanhado potente na Mostra Competitiva, falou-se um pouco de tudo e se abriu espaço para concretizações estéticas fundamentais para o entendimento do novo cinema brasileiro. Claro que há incômodos que transcendem a linguagem em si: ainda que as sessões estivessem lotadas, há um afastamento perceptível, talvez apenas por quem já acompanha o festival há muitos anos, da comunidade local. Com a frequência alterada, a formação de novos públicos acaba atendendo de maneira mais ampla aos estudantes universitários e aos profissionais do cinema. Há uma ou mais de uma geração perdidas e não mais atingidas pelo evento. É algo que reconfigura o princípio de envolvimento social esperado por seu idealizador, Paulo Emílio Salles Gomes, mas que ainda segue funcional a sua maneira.

Mesmo que mais restritivo, ainda na busca pelo equilíbrio e na prevalência pelas obras e suas constituições, o Festival de Brasília tornou-se uma vitrine instigante e apresentou filmes que precisam ser descobertos. O astral porém é o mesmo, os ares políticos que sempre distinguiram o evento estiveram por lá nos muitos gritos de “Lula livre”, “Marielle presente”, “Ele não” e na bela presença das mulheres que contaram sua história em Torre das Donzelas.

Além de uma seleção apurada em programas paralelos, a mostra competitiva de longas trouxe o cinema de afeto de André Morais Oliveira, o olhar para a América Latina de Beatriz Seigner e não excluiu o pop, seja no terror de Gabriela Almeida, na recriação feminina e adolescente de Cris Azzi ou na presença contundente e magnética de Linn da Quebrada no filme de Claudia Priscilla e Kiko Goifman.

A deferência aos curtas-metragens, destacada no gesto simples de se trazer para a abertura o sufocante moto-continuo da história do Brasil em narrações e imagens de Cristiano Burlan, impregnou toda a seleção competitiva. A educação e juventude na criação da dupla Amanda Devulsky e Pedro B. Garcia; a força feminina de Bárbara Cabeça e de Alice Andrade Drummond, a urgência social do MLB, de Fábio Rodrigues, de Pedro Nishi e Vinicius Silva e dos irmãos Carvalho, o afeto de Nara Normande, e o humor político-social de Juliana Antunes e de Fábio Leal fizeram-se presentes na tela do Cine Brasília e com suas poucas metragens – algumas não tão poucas assim – engrandeceram o festival.

Encerramento

A diversidade de títulos e olhares foi percebida nesta noite de premiação. A pulverização de prêmios entre os títulos coroou a qualidade da seleção e o teor político desta edição. Dentre os premiados, destaque para o tricampeonato mineiro, com o filme de Temporada, de André Novais de Oliveira. Na era Valente, com as conquistas de Arábia (2017) e A Cidade Onde Envelheço (2016), o estado levou todos os candangos de melhor filme.

A noite, com uma cerimônia mais uma vez longa demais, teve momentos muito importantes para o setor como um todo, como a fundação da API – Associação de Produtores Independentes, que busca na união a forma de lutar contra as limitações impostas pelas novas políticas do audiovisual, voltadas para uma pequena e já estabelecida elite do cinema nacional. Outro destaque, ainda incompreendido por aqueles que se encontram num lugar de privilégio, como se pôde ver no palco nesta mesma noite, está na criação do Prêmio Zózimo Bulbul, em homenagem ao principal nome do cinema negro no Brasil e concedido em parceria com a APAN – Associação dos Profissionais do Audiovisual Negro e do Centro Afrocarioca de Cinema aos corpos negros por trás e diante das câmeras.

Com inovações fundamentais e uma necessária atenção a questões urgentes, e realmente preocupado com um equilíbrio na representação e na representatividade, ainda que tenha muitas falhas a serem corrigidas, o 51º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro deixou a sua marca.

Confira a lista completa de premiados:

Mostra Competitiva – Longa-metragem

Melhor filme: Temporada, de André Novais Oliveira
Prêmio Especial do Júri: Torre das Donzelas
Melhor direção: Beatriz Seigner, por Los Silencios
Melhor ator: Aldri Anunciação, por Ilha
Melhor atriz: Grace Passô, por Temporada
Melhor ator coadjuvante: Russão, por Temporada
Melhor atriz coadjuvante: Luciana Paes, por A Sombra do Pai
Melhor roteiro: Ilha, de Ary Rosa e Glenda Nicácio
Melhor fotografia: Temporada, por Wilsa Esser
Melhor direção de arte: Temporada, por Diogo Hayashi
Melhor trilha sonora: Bixa Travesty
Melhor som: A Sombra do Pai, por Gabriela Cunha
Melhor montagem: A Sombra do Pai, por Karen Akerman
Menção honrosa do Júri: Bixa Travesty (pelo posicionamento e impactante apresentação da dupla Linn da Quebrada e Jup do Bairro)
Júri Popular: Bixa Travesty, de Claudia Priscilla e Kiko Goifman

Mostra Competitiva – Curta-metragem
Melhor filme: Conte isso àqueles que dizem que fomos derrotados, de Aiano Bemfica, Camila Bastos, Cristiano Araújo e Pedro Maia de Brito
Prêmio Especial do Júri: Liberdade, de Pedro Nishi e Vinicius Silva
Melhor direção: Nara Normande, por Guaxuma
Melhor ator: Fábio Leal, por Reforma
Melhor atriz: Maria Leite, por Mesmo com tanta agonia
Melhor ator coadjuvante: Uirá dos Reis, por Plano Controle
Melhor atriz coadjuvante: Noemia Oliveira, por Eu, minha mãe e Wallace
Melhor roteiro: Reforma, de Fábio Leal
Melhor fotografia: Mesmo com tanta agonia, por Anna Santos
Melhor direção de arte: Guaxuma, por Nara Normande
Melhor trilha sonora: Guaxuma, por Normand Roger
Melhor som: Conte isso àqueles que dizem que fomos derrotados, por Nicolau Domingues
Melhor montagem: Plano Controle, por Gabriel Martins e Luisa Lana
Menção honrosa de atriz coadjuvante: Mesmo com tanta agonia, Rillary Rihanna Guedes
Júri Popular: Eu, minha mãe e Wallace, dos Irmãos Carvalho

Prêmio Zózimo Bulbul
Fest Filme Fest Uni: Impermeável Pavio Curto, de Higor Gomes
Melhor Filme Curta Metragem: Eu, Minha Mãe E Wallace, dos Irmãos Carvalho
Melhor Filme Longa Metragem: Ilha, de Glenda Nicácio e Ary Rosa

Júri da Crítica – Prêmio Abraccine
Melhor Filme Curta Metragem: Mesmo com tanta agonia, de Alice Andrade Drummond
Melhor Filme Longa Metragem: Los Silencios, de Beatriz Seigner

Outros prêmios
Prêmio Conterrâneos: O outro lado da memória, de André Luiz Oliveira
Prêmio Técnico DOT Cine – Longa-Metragem: Temporada, de André Oliveira Novais
Prêmio Marco Antônio Guimarães: O outro lado da memória, de André Luiz Oliveira
Prêmio Saruê: Linn da Quebrada e Jup do Bairro, por Bixa Travesty
Prêmio Técnico Canal Curta!: Bixa Travesty, de Claudia Priscilla e Kiko Goifman
Prêmio Canal Brasil: Mesmo com tanta agonia, de Alice Andrade Drummond
Prêmio Técnico CiaRio/Neymar: Eu, minha mãe e Wallace, dos Irmãos Carvalho
Prêmio Técnico DOT Cine – Curta-Metragem: Conte isso àqueles que dizem que fomos derrotados, de Aiano Bemfica, Camila Bastos, Cristiano Araújo e Pedro Maia de Brito

Mostra Brasília
Melhor longa-metragem: New Life S/A, de André Carvalheira
Melhor curta-metragem: Entre Parentes, de Tiago de Aragão
Melhor direção: André Luiz Oliveira, por O outro lado da memória
Melhor ator: Murilo Grossi, por New Life S/A
Melhor atriz: As presidiárias do filme Presos que Menstruam
Melhor roteiro: Para minha gata Mieze, de Wesley Gondim
Melhor fotografia: Entre Parentes, por Alan Schvarsberg
Melhor montagem: A Praga do Cinema Brasileiro, por Zefel Coff
Melhor direção de arte: O Outro Lado da Memória, por Moacyr Gramacho
Melhor edição de som: Riscados pela Memória, por Olívia Hernandez
Melhor trilha sonora: O Outro Lado da Memória, Vinícius Jibhajan
Júri Popular – Melhor longa-metragem: O outro lado da memória, de André Luiz Oliveira
Júri Popular – Melhor curta-metragem: Terras Brasileiras, de Dulce Queiroz

Outros Prêmios
Prêmio Petrobras de Cinema: O outro lado da memória
Prêmio Técnico Estúdio Plug.in: O outro lado da memória
Prêmio Técnico CiaRio/Naymar
Curta-metragem: Terras Brasileiras
Longa-metragem: New Life S/A
Prêmio Aquisição Prime Box Brazil: Entre Parentes

Mostra Caleidoscópio
Melhor filme: Os Sonâmbulos, de Tiago Mata Machado

Fest Uni
Melhor Direção Fest Uni: Flores, de Vado Vergara e Henrique Bruch (PUC/RS)
Melhor Filme Juri Popular Fest Uni: A casa de Ana, de Clara Ferrer e Marcella C. De Finis (UFF/RJ)
Melhor Filme Fest Uni: Capitais, de Kamilla Medeiros e Arthur Gadelha (Escola Porto Iracema das Artes/CE)
Menção Honrosa Fest Uni: Um lugar ao sul, de Gianluca Cozza (UFPel/RS) e De vez em quando, quando eu morro, eu choro, de R.B. Lima (UFPB/PB)