Crítica | Streaming

Contra o Gelo

Dois perdidos na neve

(Against the Ice, ISL, DEN, 2022)
Nota  
  • Gênero: Aventura
  • Direção: Peter Flinth
  • Roteiro: Nikolaj Coster-Waldau, Joe Derrick, Ejnar Mikkelsen
  • Elenco: Nikolaj Coster-Waldau, Joe Cole, Charles Dance, Heida Reed, Ed Speelers, Sam Redford, Gisli Önr Gardarsson, Diarmaid Murtagh, Nick Jameson
  • Duração: 102 minutos

Produzido, roteirizado e estrelado por Nikolaj Coster-Waldau, Contra o Gelo estreia hoje na Netflix adaptando um livro autobiográfico escrito há mais de 100 anos sobre uma expedição na Groenlândia em 1909. Não é exatamente uma biografia tradicional porque o filme se pretende muito mais uma aventura no Ártico, cheia de percalços impossíveis de suplantar, mas também é o olhar para duas vidas perdidas na neve por quase dois anos e meio. Aos poucos, o longa cria uma camada de interesse que vai para um lado oposto do apresentado até então, e então eleva enfim seu material para uma fatia que ofereça mais do que uma burocrática luta pela sobrevivência em dupla.

Dirigido pelo dinamarquês Peter Flinth (de Arn: O Cavaleiro Templário), o filme poderia ter explorado mais as relações de trabalho e amizade que uniram o expedicionário Ejnar Mikkelsen e o mecânico Iver Iversen, ao mesmo tempo que criou uma estrutura reconhecível para uma produção, em encaminhamento de ação física. O trabalho do diretor aqui é o de organizar os segmentos estéticos e conseguir algum capricho na sua execução, o que acontece nas cenas da viagem da dupla. Durante esses lances, Flinth encontra espaço para criar tensão e aventura em um lugar onde o espectador já passeou outras vezes no cinema, e aqui aproveita essa história real para destacar seu quadro de urgência.

O nível da produção é bastante elevado, principalmente se levarmos em consideração em como a Netflix é econômica e em como o filme basicamente trabalha com uma dupla de atores durante 80% do tempo. O filme abusa das externas e as coloca em perspectiva com o resto das filmagens, onde os personagens estão devidamente abrigados (e eventualmente as cenas passadas longe do ambiente congelado); sua conexão tem credibilidade. Além disso, os efeitos especiais criam uma atmosfera ainda mais crível para os eventos, que incluem acidentes com animais e o surgimento de ursos em duas cenas.

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Contra o Gelo
Netflix

O longa tem um caráter dúbio em sua realização que acaba afetando a experiência e o resultado aplicado em tela. Apesar do que já foi esclarecido, acerca da escaleta de eventos do filme ser muito bem explorada pela montagem, o filme acaba sendo maior do que o necessário, o que o torna enfadonho em algum momentos, afastando o interesse do público vez por outra, principalmente na segunda metade do filme. Isso cria a chamada “barriga” em Contra o Gelo, que atrapalha o contato com a história, que nunca parece exibir toda a carga de urgência que deveria ser aplicada naquele contexto, tendo o filme uma dificuldade de manter o interesse pela segunda parte.

Já a química entre Coster-Waldau (um dos astros de Game of Thrones) e Joe Cole (de Peaky Blinders) é a grande moeda a ser apresentada pelo filme, atingindo diferentes picos de nuances e garantindo ao longa seu real interesse. A rotina que atravessa essa relação, a posterior doença, as desavenças e desconfianças, a leveza eventual e seus agudos opostos (e extremos), todas essas camadas compõem o quadro geral dos personagens, dois homens largados à própria sorte em ambiente inóspito sem data para término. Os atores se entregam a suas marcações cênicas com muita inteligência, garantindo momentos de muita veracidade no que concerne esse duo.

Contra o Gelo vai entreter mais o público que não apenas estiver em busca de entretenimento passageiro, como quem tiver paciência com sua narrativa bifurcada entre o suspense geográfico e a posterior perda da realidade que assola a dupla. O filme se ressente de uma maior dedicação a esse tema, igualmente cheio de possibilidades à sua narrativa, mas parece tudo sempre muito providencial e tocado com rapidez, sem muita reflexão. Como é algo de demasiada importância para a construção dramática, é como se o filme parece de se importar com sua própria ideia central em determinado momento, e a varresse para debaixo de um tapete, situação para o qual lamentamos.

Um grande momento
O reencontro

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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