Crítica | Streaming

Meu Filho

Rigor desperdiçado

(My Son, GBR, FRA, ALE, 2021)
Nota  
  • Gênero: Suspense
  • Direção: Christian Carion
  • Roteiro: Christian Carion, Laure Irrmann
  • Elenco: James McAvoy, Claire Foy, Tom Cullen, Gary Lewis, Michael Moreland, Robert Jack, Owen Whitelaw, Paul Rattray
  • Duração: 95 minutos

Meu Filho, estreia de hoje na Amazon Prime Video, começa com um requinte visual que o separa imediatamente de congêneres de suspense, com uma direção cheia de cuidados com os planos e enquadramentos, de fato como uma promessa de sair de uma zona genérica. A própria presença de protagonistas como James McAvoy (de Fragmentado) e Claire Foy (de O Primeiro Homem) nos vende um produto menos rasteiro do que o que costumamos ver nas prateleiras dos streamings hoje em dia. Passada a metade da produção, todo o preâmbulo esteticamente arriscado sumiu, e na tela sobrou um filme que não tenta ir além dos clichês que se amontoam.

O próprio diretor Christian Carion, previamente indicado ao Oscar por Feliz Natal, dirigiu a versão original da produção, antes protagonizada por Guillaume Canet e Melanie Laurent, quatro anos antes dessa, e aqui parece só ter tentando não passar sua obra para a mão de um pau pra toda obra qualquer. Pois o que ele realiza aqui nada mais é do que uma pálida reprodução, como uma cópia que não consegue ser encarada como produto independente, nem como homenagem. Não passa de um filme que, independente dos esforços combinados a trabalhar para um resultado final acima da média, o que se vê não passa de uma produção repetida e com pouca vida.

O que salta aos olhos é o marketing de divulgação de Meu Filho, que garante que McAvoy participou do projeto sem conhecer o roteiro, improvisando suas falas e a ação subsequente a elas. Ora bolas, trata-se de um remake de um filme francês, onde então estão os méritos do ator, que com certeza tinha acesso à trama prévia da produção? Toda essa conversa parece não mais que um atrativo sem muita imaginação para atrair público a um projeto que perde seu fôlego a cada nova cena e que precisou de um chamariz para justificar sua feitura. Com charme que se esvai, o filme não se sustenta enquanto produção de suspense ou drama sobre família desfeita.

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A trilha sonora de Laurent Perez del Mar é de muita inteligência em sublinhar a ação e deslocar a emoção generalizada para os locais corretos, indo de acordes melancólicos a uma partitura mais aguda em sua intenção, mudando o viés de cada lance. A fotografia é do mesmo Eric Dumont responsável pelo título matriz, que abre os trabalhos com rigor e segurança, mas conforme Carion avança por uma seara menos inventiva, isso acaba afetando também nossa percepção do trabalho de luz e sombras que o filme tenta segurar até o final. Ou seja, existe sim um lugar onde a excelência reside em Meu Filho, mas que vai perdendo seu brilho ao ceder espaço para a mesmice narrativa, que afeta o todo.

O trabalho do quarteto central, no entanto, vale menção honrosa dentro do que o filme propõe. Tom Cullen (de Weekend) e Gary Lewis (de Billy Elliot) seguram muito bem as cenas que coadjuvam com o talento habitual esperado a ambos, mas são os protagonistas que carregam sua relevância emocional. Foy é uma atriz de enorme talento que parece estar à espera de um reconhecimento que já deveria ter acontecido, e o filme cede a elas cenas de grande entrega física, contribuindo para que seu talento continue em evidência. Já McAvoy não se cansa de demonstrar sua gama de possibilidades, e aqui não há cena que ele não aproveite; há um arsenal de momentos que garantem ao ator que sua presença em cena não é à toa.

Indo de situações interiorizadas até explodir em uma violência justificada mas calcada no mesmo lugar esperado de qualquer thriller, Meu Filho se desenha de uma forma muito mais elegante para o espectador. Ao longo de sua primeira parte, esse rigor de roteiro está sempre à disposição da produção, mas isso é esquecido no terço final principalmente, para se agarrar aos lugares mais banais de sua concepção, deixando o populismo narrativo tomar conta. Uma pena, porque muitos profissionais estão em cena para elevar o material, que acaba se contentando com uma proposta mediana de cinema.

Um grande momento
A festa de aniversário

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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