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Contrato Perigoso

Abandonados em ação

(The Contractor, EUA, 2022)
Nota  
  • Gênero: Suspense
  • Direção: Tarik Saleh
  • Roteiro: J.P. Davis
  • Elenco: Chris Pine, Ben Foster, Kiefer Sutherland, Gillian Jacobs, Eddie Marsan, Fares Fares, Jack Harper, Florian Munteanu, Amira Casar, Nina Hoss
  • Duração: 103 minutos

Existe um real interesse nessa estreia da Amazon Prime Video, Contrato Perigoso, em se desenvolver de maneira minimamente possível, abrindo mão daquelas versões super heróicas do que seria um soldado americano de acordo com o cinema. Isso não significa que falte ação ao produto, mas que à bordo desse thriller dramático se encontra uma pitada além do que estamos acostumados a provar. Com a adição correta, o filme acaba tendo a oportunidade de desenvolver mais do que os personagens, mas as motivações por trás de cada um deles. Com pouco mais do que uma cena para cada, o filme libera detalhes cruciais para definir relações familiares, de amizade e de poder, interconectando seus fios para uma produção que não tinha qualquer maior interesse do que o entretenimento digno, sem precisar apelar para uma versão pocket do Ethan Hunt de Missão: Impossível

Até porque James Harper não é um agente secreto – pelo menos até o momento em que talvez precise ser. Ele é um soldado ferido de guerra, dispensado após encontrarem substâncias ilegais em seu corpo, que toda a corporação sabia que eram parte integrante dos medicamentos que ele tomava. Tudo isso acontece por causa de uma política interna de desmerecimento do lugar que ocupa após a volta de combate; um integrante das forças armadas hoje nos EUA é alvo de desonra social, informação essa que é corroborada pelo seu plot twist bem adiante da trama. Todo esse olhar poderia ser considerado momentaneamente ufanista em relação ao símbolo do soldado enquanto herói da nação, mas o filme ataca as instituições e quem as representa também, colocando no mesmo balaio toda essa classe e suas motivações, sejam elas legítimas ou não. 

Contrato Perigoso
Paramount Pictures

O diretor Tarik Saleh saiu ontem do Festival de Cannes com um prêmio de melhor roteiro para seu Boy from Heaven, e parece que irá dirigir o próximo filme de Liam Neeson. Aqui, sua conotação política é evidente para a crítica em relação ao estado das coisas no campo do tratamento para um grupo de profissionais que é constantemente transformado em máquina de moer gente para ser descartado em seguida, pelo Estado e pela sociedade. Nesse sentido, a metaforização do filme pega bem a trama pelo pé ao focar seu ponto em uma armadilha explicitada do que já é feito sem verbalização da parte de cima da pirâmide do poder. Sua condução presta atenção ao indivíduo por trás da ação, no que acaba por valorizar o ator e o texto, mas o filme comete alguns deslizes em relação à porção lógica de sua dinâmica de thriller, deixando as impossibilidades muito evidentes. 

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Contrato Perigoso acaba estabelecendo uma dualidade de intenções, onde em paralelo a uma cena muito boa envolvendo Chris Pine e Eddie Marsan, existe também uma fuga do protagonista que é perseguido por um grupo de motoqueiros em um rio urbano, toda surreal com a quantidade de forçadas de barra que apresenta. Essa é uma característica no mínimo estranha para um filme do gênero apresentar: todas as cenas que contenham troca entre os atores, indo para um lugar emocional, funcionam; já as que necessitam de carga física, algumas vezes deixam a desejar, pelo seu caráter improvável. O conjunto soa em equilíbrio, mas as partes unitárias patinam com alguma frequência, deixando no ar uma falta de preocupação com a própria gênese de um filme de espionagem. 

No centro de tudo, Chris Pine poucas vezes esteve tão bem em cena. O intérprete do jovem capitão Kirk em Star Trek convence desde as primeiras sequências, onde deixa claro no trabalho corporal a extrema devoção de Harper às forças armadas. O personagem deixa muitas nuances serem postas à prova, e Pine corresponde de maneira brilhante ao que é exigido a ele. Em sua combinação com o já citado Marsan, ou com Ben Foster e Kiefer Sutherland, o melhor de seu ofício é ofertado ao espectador, que sai premiado com um clímax entre os protagonistas no alto de um estacionamento. Foster está muito bem no momento, mas Pine leva toda a configuração da cena para uma voltagem impressionante, sempre muito humano e profundamente comovente. Acreditamos em cada sentença que ele se propõe a entregar, e ele, por sua vez, eleva muito o material como um todo. 

Um grande momento
Duelo ao entardecer

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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