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Cannes 2022: Vencedores triviais ou nem tanto

Para quem esperava um Festival de Cannes repleto de surpresas… não foi necessariamente isso que foi visto nos últimos 10 dias. No entanto, a premiação de hoje sim, atentou para um grupo de filmes dividido. Apareceram os cotados, e apareceram títulos que não estavam entre quaisquer apostas, incluindo filmes que até tinham sido mal recebidos. A Palma, no entanto, não temos como negar, foi para o filme mais comentado da seleção, para o bem ou para o mal.

Triangle of Sadness é um título que estava muito aguardado pela cena dos festivais, e não apenas nesse ano. De gestação longa, o filme estava entre as apostas para a competição do ano passado, quando não ficou pronto; foi citado como uma possibilidade então para o Festival de Veneza, que também não aconteceu. Seu anúncio no mês passado para a seleção oficial reacendeu os ânimos em torno de um título cujo diretor, depois de hoje, ingressou de vez numa nova linhagem de “haterismo” entre uma cepa da crítica.

Ruben Östlund, sueco de apenas 48 anos, entra para um seletíssimo grupo de cineastas com duas Palmas de Ouro no currículo, do qual já faziam parte Ken Loach, Michael Haneke, os irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne, Shohei Imamura, Emir Kusturica, Bille August, Francis Ford Coppola e Alf Söjberg – o nono do grupo. Obviamente que algumas dessas Palmas foram contestadas; as de Loach dividem muito a cinefilia, as de August igualmente. Mas Östlund é de uma seara autoral que muitos críticos gostariam que cessassem, talvez até de nascer.

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Tanto sua premiada produção anterior, The Square, quanto essa nova vitória, o marcam como um cineasta interessado em debater questões que o aproximam de uma espécie de misantropia, não tendo muito interesse em fazer outra coisa que não destruir tudo o que vê pela frente, moralmente falando. São filmes que tem a missão de provocar discussões sociais acaloradas e que se inflamam às custas de uma horda dos piores sentimentos humanos possíveis. Seu autor muito rapidamente foi colocado do lado de figuras como Yorgos Lanthimos, Lars Von Trier, Michel Franco e alguns outros, como sendo figuras que exploram a miséria humana de maneira radical. Palavras entreouvidas e reproduzidas aqui com uma delicadeza que geralmente não está entre as que são dirigidas a eles – não por mim.

Poucas horas depois da premiação, já conseguimos ouvir todo tipo de ranger de dentes a respeito da sua consagração mesmo antes de seu filme ser visto, e isso não se pode negar, é um bálsamo para um Festival (qualquer festival, até) que precisa que gere discussões, debates, e interesse por suas decisões, de qualquer ordem, desde a seleção até a premiação, passando pela escolha do júri de cada ano. Júri esse que, presidido por Vincent Lindon, assumiu a divisão de opiniões ao declarar que não houve unanimidade na decisão. “Se trata de uma democracia, então os mais queridos em cada prêmio, levou a melhor”, declarou o presidente.

A verdade curiosa é que Östlund, pela segunda vez seguida, desbanca um favorito dirigido e tematicamente ligado às causas LGBTQIA+. Em 2017, The Square venceu sobre 120 Batimentos por Minuto, longa sobre o surgimentos de grupos de ajuda, debate e combate à pandemia do HIV nos anos 1990 e que todos apontavam favoritismo e cujo presidente na ocasião, Pedro Almodóvar, declarou preferência na competição. Esse ano, Triangle of Sadness deixou o mesmo Grande Prêmio do Júri que ficou com Robin Campillo naquele ano, com Lukas Dhont, jovem diretor belga que levou Close para a competição, filme sobre a amizade de dois adolescentes à sombra da desconfiança dos sentimentos entre eles perante a sociedade.

Na categoria de direção, o prêmio ficou com Park Chan-Wook e seu Decision to Leave, filme que parece querer trilhar campanha semelhante às que vimos ultimamente acontecer com Parasita, Minari e Drive my Car no fim de cada ano, na América do Norte, se estabelecendo como uma possível arma sul-coreana aos principais prêmios da competição do ano.

As melhores interpretações ficaram com Zar Amir Ebrahimi, pela protagonista de Holy Spider, filme que causou polêmica na Croisette pela forma como aborda o feminicídio no Irã, e Song Kang-Ho, dos maiores atores sul-coreanos dos últimos anos, dono de uma filmografia invejável, e finalmente tendo seu talento reconhecido por Broker, o novo longa de Hirokazu Kore-Eda.

O único filme dirigido por uma cineasta a sair premiado hoje conseguiu um empate com Dhont em Grande Prêmio do Júri, facilmente identificável como o segundo lugar da competição, foi Stars at Noon, exercício de melodrama político dirigido pela mítica Claire Denis. A diretora francesa está tendo um 2022 abençoado, com o reconhecimento ao seu novo filme acontecendo três meses depois do prêmio de melhor direção no Festival de Berlim por Avec Amour et Acharnement, estrelado por Juliette Binoche e o mesmo Lindon presidente de Cannes.

Abaixo, a lista de vencedores:

Longas

Palma de Ouro – Triangle of Sadness
Grande Prêmio – Close e Stars at Noon (empate)
Prêmio do Júri – EO e Le otto montagne (empate)
Melhor Atriz – Zar Amir Ebrahimi (Holy Spider)
Melhor Ator – Song Kang Ho (Broker)
Melhor Direção – Park Chan-wook (Decision to Leave)
Melhor Roteiro – Boy From Heaven
Palma Honorária dos Aniversário de 75 anos – Tori et Lokita

Curtas

Palma de Ouro – The Water Murmurs
Menção Especial – Lori

Camera d’Or

1º lugar – War Pony
2º lugar – Plan 75

Un Certain Regard

Grande Prêmio – The Worst Ones
Prêmio do Júri – Joyland
Melhor Direção – Alexandru Belc (Metronom)
Melhor Atuação – Vicky Krieps (Corsage) e Adam Bessa (Harka)
Melhor Roteiro – Mediterranean Fever
Coup de coeur – Rodeo

Quinzena dos Diretores

Selo Europa Cinemas Cannes de Melhor Filme Europeu – One Fine Morning
Prêmio SACD – The Mountain

Semana da Crítica

Grande Prêmio – La Jauria
Prêmio do Júri – Toque Francês – Aftersun
Prêmio Estrela em Ascensão da Fundação Louis Roederer – Zelda Samson (Love According To Dalva)
Prêmio Leitz Cine Discovery de Curta-metragem – Ice Merchants
Prêmio Fundação Gan de Distribuição – The Woodcutter Story
Prêmio SACD – Andrés Ramírez Pulido (La Jauria)
Prêmio Canal+ de Curta-Metragem – On Xerxes’ Throne

[75º Festival de Cannes]

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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