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Correndo Atrás

O técnico e seu artilheiro

(Correndo Atrás, BRA, 2018)
Nota  
  • Gênero: Comédia
  • Direção: Jeferson De
  • Roteiro: L.G. Bayão, Jeferson De, Hélio de la Peña
  • Elenco: Aílton Graça, Juan Paiva, Juliana Alves, Lazaro Ramos, Hélio De La Peña, Lellê, Nicole Bahls
  • Duração: 90 minutos

Certa vez em uma entrevista, o diretor Jeferson De quis saber porque não poderia dirigir um filme de gênero, como O Amuleto, uma provocação às críticas que recebeu sua incursão no thriller sobrenatural. Lançado aos longas com o muito bem sucedido Bróder, o cineasta continua provocando ao lançar uma comédia agridoce que homenageia o jeitinho brasileiro e a paixão nacional pelo futebol, que acaba por alavancar sonhos nem sempre realizados – na maioria das vezes, sem qualquer possibilidade de realização. Correndo Atrás, filmado há 5 anos atrás, finalmente consegue sua estreia na plataforma e nas redes do Telecine Play.

Criador do Dogma Feijoada, manifesto que parodia o Dogma 95 criado por cineastas dinamarqueses e ao mesmo tempo lança pra si iniciativas que privilegiem o corpo e a narrativa negra, De consegue aplicar suas regras aqui nesse novo filme, protagonizado, escrito e dirigido por negros, e cuja história não os estereotipa, vitimiza ou discrimina, além de contar com uma narrativa que seja identificada com lutas diárias suas. E está tudo na tela, sem panfleto ou didatismo, para apresentar um desenvolvimento cujas bases podem ser debatidas, mas nunca mitigadas; a efervescência que o diretor captura com esse relevo é contagiante.

Correndo Atrás

O trabalho de direção merece atenção, porque retoma o talento que o realizador já tinha demonstrado anteriormente na cabeceira de um projeto. Sua construção imagética que brinca com a paleta de cores desde a abertura, injetando colorido literal nos filtros até ampliar essa decisão para valorizar a pele negra na tela é de um cuidado ímpar nessa seara, cuja importância raras vezes é aplicada. O trabalho foi a estreia do fotógrafo Cristiano Conceição nas lentes e luzes, que voltaria a trabalhar com De em M8 mas aqui tem inspiração particular para um recorte cromático que não beneficia atores como Juliana Alves e Aílton Graça, aqui com sua pele reluzente.

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Adaptado por De e por Hélio de la Peña a partir de um livro do próprio, o esquematismo do roteiro é que aprisiona Correndo Atrás, e cria um descompasso entre o que seu diretor mostra e o que seus roteiristas dizem. Com planos cuja beleza é incontestável (o diálogo entre Ventania e Glanderson ao anoitecer no campo de terra, por exemplo), as qualidades das imagens não conseguem encontrar resposta equivalente no texto, que não é ruim, apenas é de uma obviedade a toda prova, em seus mecanismos e ganchos, e mesmo em suas tentativas de criar humor. Que eventualmente seus esforços sejam recompensados, ainda assim o equilíbrio não é alcançado.

Correndo Atrás

O filme todo é criado em torno de arquétipos sociais, e isso poderia ser uma chave de aproveitamento do roteiro, mas seu desenho não é aprofundado, embora sua estrutura dramática funcione. Só é um amarrado de ideias já testado anteriormente, em construções mais bem sucedidas. Aqui, o filme parece encantar com os enquadramentos do diretor, que alcança belos momentos, mas o equivalente narrativo não encontra resguardo, ainda que as intenções do cineasta sejam claramente captadas – celebrar a eterna tentativa de ascensão social a todo custo, entre adolescentes e adultos, que culmina em um plano doloroso, quase no encerramento, criando uma amargura final ao resultado final.

Existe um elemento em Correndo Atrás cujo equilíbrio perpassa todas as etapas da narrativa, mantendo o padrão elevado ao menos na sua participação, justamente Ailton Graça. Com um elenco talentoso onde Juan Paiva, Tonico Pereira e Rocco Pitanga também tem ótimas presenças, Graça, um ator tão sucateado pela tv, e que já brilhou intensamente em filmes como Carandiru, Contra Todos, Meu Tio Matou um Cara e Querô, volta a elevar o padrão de seu espaço, como pedindo para ser valorizado com uma interpretação tão cheia de brilho e possibilidades; é ele o verdadeiro craque da bola de um filme que a sua presença nunca representa desequilíbrio.

Um grande momento
Fazendo as pazes no meio da rua

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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