Crítica | FestivalFestival do Rio

M8 – Quando a Morte Socorre a Vida

(M8 – Quando a morte socorre a vida, BRA, 2019)
Gênero
Direção: Jeferson De
Elenco: Fábio Beltrão, Mariana Nunes, Zezé Motta, Ailton Graça, Rocco Pitanga, Giulia Gayoso, Raphael Logam, Juan Paiva
Roteiro: Jeferson De, Felipe Sholl, Carolina Castro
Duração: 84 min.
Nota: 7 ★★★★★★★☆☆☆

M8 – Quando a morte socorre a vida traz à tona um dilema crucial para um jovem negro: como eu não vou me tornar mais uma estatística em uma sociedade excludente onde sou visto como excedente? Natural de uma perifa da cidade de São Paulo, o diretor e roteirista Jeferson De transpõe um pouco da sua própria história de vida para a tela do cinema quando parte da adaptação da obra de ​Salomão Polakiewicz para construir uma história absolutamente urgente e devastadora.

Acessando a universidade pública por meio da cota racial, o personagem de Juan Paiva logo nota que o cadáver ali deitado e sendo manuseado pelo seu professor de anatomia e os colegas poderia ser ele próprio. Não demora a virem os delírios – ele sofre perturbações que o levam a investigar quem foi M8, enterrado como indigente. A mãe (interpretada com maestria por Mariana Nunes) se angustia perante a possibilidade de o filho desistir da carreira acadêmica por conta da esmagadora pressão do racismo e classismo.

Tergiversando sobre o que vai no tecido social brasileiro e na ferrenha luta de classes que se trava diariamente em todas as cidades do país, Jeferson De faz um filme popular e profundo, ainda que muito acessível. Difícil não se compadecer perante tantas injustiças ou o silêncio que testemunha a chacina sistêmica da juventude negra.

Porém, mesmo quando a mão do cineasta pesa um pouco – como na cena onde o menino leva uma prensa dos policiais, menos homens e mais máquinas opressoras – ela não desvia o curso da narrativa, que consegue elipticamente tratar da ascensão social e tomada de consciência de jovens negros e seus aliados brancos.

Agora incomoda um pouco a unidimensionalidade dos personagens coadjuvantes? Sim, mas é uma concessão ou escolha consciente para que o foco permaneça no menino e em sua mãe – que trabalha como enfermeira na casa de um médico milionário e bondoso. Falando novamente dos aspectos positivos, ponto para a produção que também traz em seu corpus (por trás das câmeras) uma equipe composta por homens e mulheres negrxs que cada vez mais se apoderam de suas próprias narrativas. E que esse filme possa ser visto no streaming, na Globo e mostre que existem outras visões periféricas dos jovens que não se limitam à cosmética – também opressora e sistêmica – do favela movie.

Um Grande Momento:
Quando mãe e filho sentam juntos à mesa e as verdades são cuspidas.

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[Festival do Rio 2019]

Lorenna Montenegro

Lorenna Montenegro é crítica de cinema, roteirista, jornalista cultural e produtora de conteúdo. É uma Elvira, o Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema e membro da Associação de Críticos de Cinema do Pará (ACCPA). Cursou Produção Audiovisual e ministra oficinas e cursos sobre crítica, história e estética do cinema.
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