Crítica | FestivalFestival do Rio

Pureza

(Pureza, BRA, 2019)
Drama
Direção: Renato Barbieri
Elenco: Dira Paes, Matheus Abreu, Mariana Nunes, Claudio Barros, Sergio Sartorio, Flavio Bauraqui
Roteiro: Renato Barbieri
Duração: 101 min.
Nota: 8 ★★★★★★★★☆☆

A jornada de uma heroína defensora da floresta. Pureza de Morais Costa é o símbolo da resistência icamiaba – palavra de origem tupi que significa peito partido. Icamiabas também o são denominadas as Amazonas, índias corajosas que formaram uma brava tribo vivente às margens do lago do espelho da lua, na divisa do Pará com o Amazonas.

Dira Paes encarna a mulher real na ficção – personagem e temática que caberiam bem num documentário, como o fez a brasiliense Thais Borges em O Tempo que Resta – com tamanha alma que dificulta delimitar onde começa a interpretação e termina o mergulho quase mediúnico na experiência de ser uma mulher campesina. Com o peito partido e o coração arrancado, ela se camufla como cozinheira em uma das fazendas onde o trabalho escravo corre solto: onde homens têm seus direitos confiscados, a carteira de trabalho subtraída e a dignidade equilibrada na ponta do lápis do capataz, que assinala uma dívida gigantesca para cada um dos pobres diabos.

Utilizando uma paleta de cores empoeiradas que contrastam com a onipotência e quase violenta majestade do verde da floresta amazônica, o longa de Renato Barbieri trilha o caminho acidentado das cinebiografias, não sem cair em algumas armadilhas (aqueles personagens que são obstáculos na luta de Pureza pela justiça são maus de verdade, não há espaço para dúvidas mas também não há maniqueísmo) mas orquestrando uma emoção e envolvimento genuínos na saga de Pureza em busca do filho perdido em uma das fazendas onde vidas são roubadas nos rincões do Pará.

Boas participações do grande ator e preparador de elenco Cláudio Barros como o padre que é o fiel escudeiro da heroína, assim como Mariana Nunes que dá vida a uma fiscal do trabalho aguerrida. Belo e talentoso – como já havia sido possível comprovar em Dois Irmãos – Matheus Abreu faz uma ponta onde há muita entrega, mas o filme em sua tessitura dramática, no tom e na cadência da história é movido pela força de Dira/Pureza. Comedida no sotaque, ela entrega uma precisão ao compor uma mulher com uma força interior gigante, sem ocasionar em cenas onde a catarse vem de uma maneira forçada, mesmo que a trilha edificante peça por isso.

Ao fim da jornada, fica a sensação de ter visto um bom filme que se localiza entre o cinema de arte e as comédias estreladas por humoristas, que convida o mundo a olhar para a Amazônia e aquelas guerreiras como a mãe que lutou por tantos filhos subjugados pelo poder do capital que escraviza e mata.

Um Grande Momento:
O discurso retirado literalmente da vida real, de Pureza em Brasília quando da instalação do comitê de combate ao trabalho escravo.

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[Festival do Rio 2019]

Lorenna Montenegro

Lorenna Montenegro é crítica de cinema, roteirista, jornalista cultural e produtora de conteúdo. É uma Elvira, o Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema e membro da Associação de Críticos de Cinema do Pará (ACCPA). Cursou Produção Audiovisual e ministra oficinas e cursos sobre crítica, história e estética do cinema.
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