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Crime em Roubaix

Reconstituição da memória

(Roubaix, une lumière, FRA, 2019)
Nota  
  • Gênero: Suspense
  • Direção: Arnaud Desplechin
  • Roteiro: Arnaud Desplechin, Léa Mysius
  • Elenco: Roschdy Zem, Léa Seydoux, Sara Forestier, Antoine Reinartz, Sébastien Delbaere, Elléonore Lemattre, Roxane Dubart, Antoni Mignon, Christophe Hennart, Christophe Filbien, Chloé Simoneau
  • Duração: 119 minutos

Arnaud Desplechin mergulha cada vez mais, como cineasta, a desnudar os caminhos da memória, coletiva ou particular, para circundar sua obra. Tematicamente, ela já era perseguida pelo autor, mas seu foco vem se aprofundando em torno dessa discussão, que já permeou tantos cineastas. O que teria de especial a inclinação específica dele talvez seja a busca que se intersecciona por lados tão díspares quanto esse “novo” Crime em Roubaix, que acaba de estrear na plataforma Belas Artes à la Carte, com passagem pela competição de Cannes e vitória de Roschdy Zem no César de melhor ator.

Existe no longa um amálgama que já foi pensado anteriormente, que é o binômio noir + fábula, mas aqui se traduz com uma tentativa de um realismo premente, ainda que embebido de arquétipos desconstruídos e um naturalismo que carrega a produção para a contemporaneidade. Os ecos resvalam em xenofobia, em violência urbana e na miséria material que se transforma em emocional, envolta em uma trama policial coletiva, com diversos lados, ramificações e diferentes graus de profundidade, o que não costuma ser do feitio do diretor; independente da centralidade narrativa que acompanha o autor, aqui sua pena parece ter perdido o alvo.

Crime em Roubaix

À medida em que o roteiro avança e temos conhecimento dos rumos de sua narrativa, o filme sai do esquema de painel social que trazia seu tempero diferenciado e segue afunilando cada vez mais em uma única voz, o que interrompe seu fluxo inicial. Até então, Crime em Roubaix empunha seu desenvolvimento em uma série de olhares sociais marginalizados, bem como imigrantes, LGBTQIA+, e o entorno que abriga excluídos em sua maioria; ao focar todos os seus esforços em um único ponto, o longa perde seu material de interesse até se tornar um policial que bebe em atmosfera dos anos 1950, muito bem dirigido e interpretado, mas pouco além.

O polar, que é como foi difundida a resposta francesa ao noir, acaba sendo uma redução das possibilidades de Desplechin, que poderia ir além da alcunha para engrandecê-la. Através do cinema de gênero, aprofundar suas discussões sobre memória, como já versam Três Lembranças da Minha Juventude e Os Fantasmas de Ismael, mas aqui, ainda que essa busca esteja representada principalmente por centrar sua trama na acareação entre personagens suspeitos de um crime sem recorrer a flashbacks, vemos sua inspiração abraçar cada vez mais a homenagem e esquecer seu olhar tão arguto para a imaginação, que se perde do que parecia ser a intenção inicial.

Crime em Roubaix

Enquanto se apoiava na alegoria, a estrutura criada pelo seu autor permitia um desenho livre de personagens, amontoando figuras para a construção de um mosaico contemporâneo a respeito de párias de diferentes estirpes. Quando sai desse âmbito mais amplo e coloca uma lupa em um quarteto fechado de figuras, o roteiro escrito pelo diretor e também por Mosco Boucault e Lea Mysius revela personagens humanizados que engrandecem o filme em sua nova roupagem, ainda que não proteja o todo de soar despedaçado e menor.

Tais tipos, vividos por Zem (de Os Segredos de Madame Claude), Antoine Reinartz (premiado por 120 Batimentos por Minuto), Lea Seydoux (premiada por Azul é a Cor Mais Quente) e Sara Forestier (premiada por Os Nomes do Amor), ganham dimensões inesperadas, porque nunca estão na frequência esperada dos filmes-padrão. Enquanto as duas talentosas atrizes apresentam degraus diferentes de um quadro de tragédia social, com camadas infinitas, os responsáveis por interpretar os policiais, Reinartz como o novato religioso e Zem como um dos mais suaves já vistos no cinema, ampliam o que o filme tem de melhor ao final, que é nos apresentar a outros lados de moedas tantas vezes já conhecidas, plenos em humanidade.

Um jogo que parece terminar em empate, Crime em Roubaix frustra o espectador ao não ir até o limites de sua proposta cênica ao utilizar a memória como ponto de partida para a rememoração do recente através da violência, mas nos convida a conhecer ao menos um quarteto de seres que nos deixa saudades ao término da sessão, mostrando o potencial anunciado e já comum na obra de Desplechin, aqui mais satisfeito em homenagear um gênero caro ao cinema francês do que investigar suas próprias bases autorais.

Um grande momento
“Eu não falo com mortos”

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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