Crítica | Cinema

Noites de Alface

A passagem de muitos tempos

(Noites de Alface, BRA, 2020)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Zeca Ferreira
  • Roteiro: Zeca Ferreira
  • Elenco: Marieta Severo, Everaldo Pontes, Inês Peixoto, Teuda Bara, João Pedro Zappa, Lumi Kin, Antonio Sakatsume, Romeu Evaristo, Pedro Monteiro, Izak Dahora
  • Duração: 87 minutos

Um ciclo é encerrado ao final de Noites de Alface, e a forma como elabora essa estrutura, interligando início e fim de maneira singela e prejulgando um moto perpétuo de acontecimentos circulares, que soa muito simpática como um todo. Como se sua narrativa fosse inteiramente interligada e não houvesse passado, presente e futuro, a produção pensa uma parábola sobre o tempo e sua passagem em constante evolução, ao passo em que não apresenta nenhum novo aspecto, a priori. Como uma ampulheta eternamente sendo recomeçada e que não tem um lado correto, o que é observado no geral é essa diagramação temporal contínua.

Zeca Ferreira, diretor e roteirista que adaptou o romance de Vanessa Barbara, aperta os botões certos porque seu filme está falando diretamente sobre envelhecimento, solidão na terceira idade, além de fazer uma espécie de elegia à terceira idade. Se conecta diretamente à proposta metafórica acompanharmos essa narrativa pelo ponto de vista de um casal bem vivido, interpretado pelos gigantes Marieta Severo e Everaldo Pontes. Desde a cena de abertura, com a alusão à passagem de tempo e o cansaço, já nos conectamos com o que o filme quer comunicar, e seu labirinto elíptico.

Noites de Alface

Em teoria, a produção teria um acerto com que se desdobrar narrativamente, e eventualmente Noites de Alface até transcorre a placidez necessária para que a reflexão proposta seja não só apreciada como alcançada. Mas existe essa espiral narrativa com a qual o filme precisa se debruçar, onde se interligam inúmeros tempos dramáticos, e o essencial para sua fluência era que o trabalho de montagem e de elaboração das suas curvas não fossem tão emaranhados. Na provável ânsia de criar camadas temporais distintas, o filme acaba por embolar o entendimento e o jogo cênico acaba por perder força, quando se inundam de informações conflitantes.

Noites de Alface apresenta um trabalho de criação de luzes, de posicionamento de câmeras e de elipses imagéticas planos sofisticados, a cargo de Miguel Vassy (de Sertânia e Jovens Polacas). O grande nome da fotografia no ano passado revela a passagem do tempo naquele ambiente carregado de pesar, devassando com delicadeza o espaço cênico com um simples mover de maquinaria, conseguindo belos efeitos com poucos recursos. Sua experiência eleva o resultado estético da produção, e junto a ele o filme cria uma espécie de jogo relacionado às lâmpadas que são um toque de suavidade diante de algo tão definitivo quanto à morte.

Noites de Alface

Sem uma necessidade aparente, o filme inclui uma situação trágica no terceiro ato que serve exclusivamente para conectar possíveis estranhezas do roteiro e que soavam muito mais saborosas quando estavam sobrepostas de maneira vaga; Quando resolve amarrar esse detalhe, o filme resvala na gratuidade, apresenta os personagens a um erro que os une ainda mais, porém que não se justifica enquanto curva dramática, soando deslocado do clima da produção.

Porém acima dos problemas e com uma simpatia à toda prova, Noites de Alface é um filme que nos conquista muito rápido e facilmente, graças à sua ambiência tão prosaica e real (o filme foi inteiramente rodado na Ilha de Paquetá, no Rio de Janeiro), à simplicidade com que temas tão inerentes à vida são apresentados, a um elenco abarrotado de talentos como Teuda Bara, Inês Peixoto, João Pedro Zappa, Romeu Evaristo, Pedro Monteiro além do casal protagonista, é fácil embarcar na produção com prazer. Infelizmente esses deslizes no percurso acabam por prejudicar a fruição do todo no coração da sua dramaturgia.

Um grande momento
Otto passa roupa

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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