Crítica | Festival

499

Calando para que ouça

(499, MEX, EUA, 2020)
Nota  
  • Gênero: Documentário
  • Direção: Rodrigo Reyes
  • Roteiro: Misha Maclaird, Lorena Padilla, Rodrigo Reyes
  • Elenco: Eduardo San Juan Breña
  • Duração: 87 minutos

Conquistador. Este é o título que a História deu àqueles que se destacaram pela dizimação de povos e destruição de culturas, figuras ilustres de uma América construída sobre o sangue de civilizações e povos milenares. Hernán Cortés foi um deles, o homem que derrotou Montezuma e destruiu o império Asteca. Um dia, em 2019, a exatos 499 anos do massacre de Tenochtitlán e da morte do último rei asteca, o conquistador acorda numa praia do México. Em seu salto temporal de quase cinco séculos, ele chega para conhecer a realidade do país que ajudou a construir.

É neste devaneio que Rodrigo Reys encontra o caminho para falar sobre a violência no México, país dominado por cartéis e pela máfia, e onde a corrupção direciona o governo há décadas. De seus massacres e do alto do comando de suas tropas, o conquistador não tem mais ninguém ao seu lado, mas ainda traz consigo, junto com sua velha armadura de batalha, a velha empáfia e o suposto poder atribuído por um rei que não mais existe. O diretor acompanha a patética criatura que vagueia por aquele mundo desconhecido à frente de seu tempo fingindo não sentir estranhamento e, pior, ainda quer definir-se como figura de relevo, até que o roteiro determina seu lugar. 

O conquistador, vivido pelo ator Eduardo San Juan Breña, não está ali para falar, está ali para ouvir e para ver. Agora mudo e existindo como alguém que não tem qualquer poder a não ser o de escutar, papel histórico não experimentado pelo protagonista, suas memórias ainda podem ser ouvidas pelo espectador enquanto ele caminha pelo presente.

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499

Dividido em capítulos, com títulos que remetem ao percurso de Cortés até a tomada de Tenochtitlán, o longa abandona a ficção do primeiro momento, mas leva o seu personagem por todo o caminho para acompanhar relatos documentais das mais diversas formas de violência no México, aquela que está na cidade, no campo, na fronteira. São histórias de pessoas comuns que viram seus pais e filhos serem arrancados de suas vidas de maneira assombrosa, narradas em detalhes cruéis por aqueles que sofrem até hoje essas ausências para o próprio conquistador. Tempos diversos, crueldades semelhantes.

Reys, ao lado de seu diretor de fotografia Alejandro Mejía, traça uma relação imagética dúbia entre o protagonista e o espaço. Ao mesmo tempo em que há um claro estranhamento entre ele e aquele tempo e local, não há nada que realmente coteje a sua presença no ambiente, pelo contrário, é como se ele estivesse tão ou mais ambientado do que outros elementos que se apresentam. Ao mesmo tempo, há uma atenção especial ao retratar o espaço para além das dores e do próprio ser — ou seres. É aquele algo que está além do homem.

São escolhas que falam alto sobre o México e a própria colonização, com a permanência histórica da marca desse colonialismo, algo que aqui no Brasil e em toda a América conhecemos bem, ainda que nem todos sejamos descendentes de civilizações como eles. Com seu personagem que vagueia pelo mundo corrompido de hoje e enxerga sua sina, 499 é eficiente ao estabelecer a dinâmica entre passado e presente, a contraposição daquele que perpetrou o massacre e agora é testemunha muda de tantos outros massacres, num jogo de perpetuação secular da violência. 

Um grande momento
O monstro chora por Fáti

[2021 Tribeca Film Festival]

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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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