Crítica | Festival

No Running

A única saída

(No Running, EUA, AUS, 2021)
Nota  
  • Gênero: Ficção Científica
  • Direção: Delmar Washington
  • Roteiro: Tucker Morgan
  • Elenco: Skylan Brooks, Taryn Manning, Shane West, Diamond White, Rutina Wesley, Bill Engvall
  • Duração: 82 minutos

Jaylen poderia ser apenas mais um dos muitos adolescente vivendo em um subúrbio dos Estados Unidos, isso se vivêssemos em uma sociedade saudável e igualitária, mas essa não é a realidade. Jaylen é um jovem negro, que vive em uma comunidade majoritariamente branca e sofre diariamente unica e exclusivamente pela cor de sua pele. No Running, longa de estreia de Delmar Washington, mais do que ser um drama sobre a questão racial, é um thriller de ficção científica, que encontra na questão social sua razão de existir. Seguindo a tradição do gênero, afinal desde Metrópolis, o sci-fi está metaforizando a sociedade, o fantástico chega para reafirmar a realidade e demarcar a situação de exclusão e desigualdade.

Com roteiro de Tucker Morgan, a trama, que lembra outros tantos suspenses já vistos anteriormente, gira em torno de uma série de desaparecimentos não solucionados de garotas. Jaden surge, naquele espaço — tanto do seu trabalho quanto na escola — como o suspeito usual, por toda a história de estereótipos que já conhecemos. Washington destaca o deslocamento desde os primeiros momentos do filmes. A opressão racial está dentro de casa e no modo como o protagonista é tratado — ou ignorado — no seu dia a dia, no trabalho, na escola. Os bons momentos se reservam àqueles passados ao lado da namorada e a alguns respiros com um colega.

O roteiro segue um padrão, com o ambiente hostil, o protagonista excluído que tenta a todo custo provar sua inocência e um antagonista que o persegue. As tintas são exageradas e tudo é bastante didático, para que não haja qualquer dúvida de onde e do que se está falando. Skylan Brooks, de Mentes Sombrias, e Shane West, de Um Amor para Recordar, estão nos pólos opostos e também se rendem à essa marcação excessiva. Seus núcleos, seguem o mesmo caminho.

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O que dá algum vigor ao filme é a chegada do elemento fantástico, tanto pela imprevisibilidade quanto pelas possibilidades de caminho que oferece ao diretor. No Running não se intimida de ir beber na fonte dos filmes B e é divertido ver como ele realiza seus eventos. Indo além da imagem, a trama, que se construiu sufocante e sem saída ou solução até então, é curiosa por determinar alegoricamente uma nova possibilidade ao protagonista. O que se vê, de certa maneira, remete ao curta transafrofuturista brasileiro Inabitável que, de certa maneira, enxerga no elemento sobrenatural, no caso extraterrestre, uma resposta para o que não tem solução.

É por essa construção narrativa que No Running se torna um filme interessante, por encontrar na ficção científica o lugar propício para falar de uma existência que é proibida em sociedade, que é invisibilizada, diminuída, menosprezada, violada. Ainda que padeça de vários problemas, vícios de roteiro e algumas facilitações, tem o seu valor enquanto obra que encontra caminhos para registrar o seu tempo.

Um grande momento
No deque

[2021 Tribeca Film Festival]

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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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