Crítica | Festival

Italian Studies

Se perdendo para criar... e o cachorrinho

(Italian Studies, EUA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Adam Leon
  • Roteiro: Adam Leon
  • Elenco: Vanessa Kirby, David Ajala, Annika Wahlsten, Lars Wahlsten, Neil Comber, Rosa Walton, Jenny Hollingworth, Simon Brickner, Lauren Colasanti, Eve Van Rens, Claire Buchanan
  • Duração: 81 minutos

Todas as pessoas, sem exceção, tem seus pontos fracos, seus gatilhos. Aquele negócio que desacerta e faz ficar preso a algo. Pode ser algo grande, paralisante, ou pode ser uma coisinha pequena, mas que fica ali fazendo a gente voltar para o mesmo lugar. Críticos de cinema, ora vejam só, são pessoas, e eu tenho a minha questão, com cachorros. É algo que consigo trabalhar, mas não deixa de estar ali, desde que vi no cinema Lupa morrer no final de O Trapalhão nas Minas do Rei Salomão. Italian Studies não tem nada a ver com cachorros, fala da viagem interessantíssima de uma escritora por sua própria memória, mas ela tinha um cãozinho e, antes de partir em sua jornada, o deixa amarrado na porta da loja onde tudo começa.

Essa escritora que, de repente, se esquece da própria identidade é Alina Reynolds, vivida pela sempre competente Vanessa Kirby (Pieces of a Woman). Daquele ponto, ela parte sem rumo pela cidade em encontros variados com jovens que descobriremos muito depois serem os personagens de seu livro. Adam Leon usa a história desta mulher e a une a relatos de adolescentes sobre seus anseios e percepções de vida, ao mesmo tempo em que os coloca em cena interagindo com a protagonista e com a cidade. Entre as relações estabelecidas, uma se destaca: a de Aline e Simon, que serve como uma espécie de guia naquele universo e como o motivo para que a própria trama se inicie.

E o cachorrinho?

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O roteiro, assinado também por Leon, não faz qualquer questão de explicar ao espectador o que está acontecendo. Pelo contrário, está sempre deixando as coisas um pouco mais confusas com a aposta na não-linearidade temporal. Entre congratulações e inspirações, vemos Alina passear pelas estações do ano, em idades diferentes e ficamos perdidos assim como ela em sua experiência criativa. Da vivência das ruas que vai para as páginas do livro à experiência da leitura, são apenas a identidade e o senso de estranhamento com qualquer ambiente da personagem que estão bem definidos. Ela é um ser pertencente, mas que não sabe onde está.

E o cachorrinho? 

Nova York aparece em movimento, com suas muitas cores diurnas e a noite alaranjada que o cinema imortalizou. O lado underground da cidade grande está nos galpões abandonados e nas baladinhas em espaços quase improvisados onde a pluralidade de corpos se destaca. Esta pluralidade, material para criatura e criador, neste jogo de camadas que o diretor cria ao falar de uma autora criando e, ao mesmo tempo, fala de si mesmo, é o que o longa tem de mais interessante. O enaltecer do processo de criação, quando a chave de Italian Studies vira, na cena onde temos contato com a obra pela própria Aline e quando ela a assume, é simples, porém vem com a força certa para um filme que nunca subiu o tom.

E o cachorrinho?

Porque nas idas e vindas temporais, nos encontros com aqueles que viram suas vidas tocadas por suas palavras ou com aqueles que as inspiraram, a escritora que se estava temporariamente perdida de sua personalidade e, ao mesmo tempo, se construindo representa a página em branco, o momento de criar. E Kirby se coloca muito bem nessa posição de descoberta, numa atuação discreta que, pela própria natureza do papel, não pode se impor e está nos detalhes, num olhar, num constante esfregar das mãos.

E o cachorrinho?

E foi assim que, com a atenção dividida entre dois pontos, Italian Studies aconteceu. De um lado, a ideia do cachorrinho amarrado na porta da loja de ferragens. De outro, como um imã, a trama não me deixava desgrudar do emaranhado confuso que se apresentava na tela e do rosto daquela mulher que tentava entender o que estava acontecendo, assim como eu. Não deixou de ser interessante.

Um grande momento
Sim, o livro é meu.

Foto de destaque: Courtesy of Tribeca Festival

[2021 Tribeca Film Festival]

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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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