festivaisMostra de Tiradentes

Sertânia

(Sertânia, BRA, 2019)
Drama
Direção: Geraldo Sarno
Elenco: Vertin Moura, Julio Adrião, Lourinelson Vladmir, Igor de Carvalho, Gilsérgio Botelho, Kécia do Prado, Edgard Navarro, Isa Mei, Marcelo Cordeiro, Rogério Leandro, Marcos Duarte e Teófilo Gobira
Roteiro: Geraldo Sarno
Duração: 98 min.
Nota: 8 ★★★★★★★★☆☆

Uma busca profunda pelas origens. Quando Geraldo Sarno monta o set de Sertânia para contar a história de Antão em seus delírios à beira da morte, ele busca a sua própria história. Aquela câmera que rasteja pelo solo do sertão, aquele que o cineasta conhece tão bem e tão bem retratou, e volta sempre ao mesmo ponto, “ô desgraça”, fala de sua origem e, mais, da origem de um cinema que marcou a cinematografia brasileira.

Nessas idas e vindas delirantes, literalmente falando, encontra espaço para construir sua história através de rupturas, fazendo com que universos diversos se concretizem e faça sentido o voltar às lembranças e aos mitos sertanejos, o interagir no mundo dos mortos e a incessante busca pelo pai. Até mesmo a quebra completa, com a interferência da equipe, faz todo o sentido.

Sarno traz à tela muito da estética de antes, mas a revigora. Com uma fotografia em preto e branco para lá de inspirada de Miguel Vassy, consegue casar o velho e o novo, reinventa o que tantas vezes já se viu e cria outras sensações em uma nova plateia. E é curioso porque nessa viagem tão pessoal, a partir do cristalizado em busca de traços de renovação, a mente de quem vê o filme faz o paralelo imediato com o presente saudosista que está sempre buscando este passado, seja no fazer cinema, como guia, ou, indo além, no pensar e discutir o nosso cinema, sempre voltando ao mesmo lugar.

Nos delírios de Antão, as muitas viagens dentro do filme possibilitam outras tantas fora dele. E é aí que está a potência de Sertânia, no proporcionar caminhos, outras viagens e delírios. Mesmo que esteja confortável de partir de um lugar que ele domina e diz querer continuar explorando, o sertão, aos 81 anos, Sarno assume o risco e acerta em cheio.

Embora seja repetitivo em sua forma, e até aí haja coerência, Sertânia é o reencontrar-se com um lugar de uma maneira inusitada, vendo-o como ele era, mas como se estivesse vivendo-o de novo pela primeira vez. Nostalgia e descoberta. Não faz muito sentido, mas é ótimo que seja assim.

Um Grande Momento:
Os mitos de Jesuíno em volta da mesa.

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[23ª Mostra de Tiradentes]

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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