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Cyrano Mon Amour

(Edmond, FRA/BEL, 2018)
Comédia
Direção: Alexis Michalik
Elenco: Thomas Solivérès, Olivier Gourmet, Mathilde Seigner, Tom Leeb, Lucie Boujenah, Alice de Lencquesaing, Clémentine Célarié, Igor Gotesman, Dominique Pinon, Simon Abkarian, Marc Andréoni, Jean-Michel Martial, Alexis Michalik, Benjamin Bellecour, Marc Citti
Roteiro: Alexis Michalik
Duração: 110 min.
Nota: 6 ★★★★★★☆☆☆☆

Fim do século 19, Paris, França. Vários acontecimentos que marcaram a cidade e o país, como a falsa acusação contra Alfred Dreyfus ou a ofensiva pela tomada de Madagascar, servem para contextualizar o surgimento de Edmond Rostand, poeta e dramaturgo, que fez história justamente misturando suas habilidade em construir peças em versos. A grande Sarah Bernhardt apresentava, então, sua peça “A Princesa Longínqua”. O insucesso da apresentação traz a insegurança ao autor, que passa os dois próximos anos sem conseguir escrever, até que, após uma encomenda para o ator Constant Coquelin entrega o maior sucesso dos teatros franceses: “Cyrano de Bergerac“.

Cyrano Mon Amour, no original Edmond, dirigido por Alexis Michalik, fantasia na criação deste marco da cultura francesa. O projeto do longa-metragem é antigo, mas sem investidores para realizá-lo acabou sendo adaptado para os palcos, numa peça que rendeu à Michalik alguns Molières (a premiação máxima do teatro de lá) e muito sucesso. Foi assim que o dinheiro surgiu para levá-lo ao cinema.

Cyrano Mon Amour

Um bom elenco, com destaque para Olivier Gourmet como Coquelin e Mathilde Seigner como Maria Legault; um texto ágil e funcional, e um desenho de produção de encher os olhos, fazem com que o filme se desenvolva com muita facilidade. O diretor consegue tornar a ambientação muito palpável ao trazer a França em muitos detalhes característicos, indo do vaudeville às inovações cinematográficas, da composição social às determinações morais.

O humor, acentuado pela trilha sonora de Romain Trouillet, predomina a narrativa. São muitas reviravoltas em passagens cheias de diálogos e explicações. A brincadeira de Michalik, assimilada e aproveitada por seus atores, está no lugar de expectativas frustradas, desencontros e algo que beira o ridículo, mas sem nunca encontrá-lo.

Outra escolha interessante é pela assunção da metalinguagem como caminho. Partindo da peça original, que homenageava o também escritor e duelista homônimo, passando pela atrapalhada construção do personagem e sua encenação, amontoam-se camadas que abrem espaço para os dramas de Edmond, a invasão das cochias e a exposição do teatro como aposta e negócio.

Cyrano Mon Amour

São escolhas previamente determinadas e que justificam toda a liberdade poética do roteiro, também assinado por Michalik. Em uma versão muito própria daquela história, esbarra em situações impossíveis, mas que sobrevivem ao conjunto da obra, tanto pelo tom, como pelo ritmo. Além disso, há muito a ser descoberto e reconhecido por aqueles que conhecem bem a peça Cyrano de Bergerac e, ao mesmo tempo, essa leveza e velocidade que atrai quem não é tão familiarizado com a obra.

Tudo está bem encaminhado, porém, Cyrano Mon Amour deixa uma impressão de excesso e superficialidade. O que se vê é interessante, mas falta um mergulho mais corajoso na história que se conta, dando mais importância à forma do que o conteúdo, ainda que se perceba a atenção dada a este.

Cyrano Mon Amour

Indo mais além, há uma interferência curiosa neste filme que virou peça antes de virar filme: o que se vê por vezes está preso demais ao que se espera dos palcos, ainda que não esteja neste lugar. É como se a passagem pelo teatro tivesse contaminado o texto de tal maneira que ele se encontrasse preso em uma espécie de encenação deslocada.

São deslizes que chamam a atenção e podem interferir na experiência, mas, ainda assim, há qualidades inegáveis em Cyrano Mon Amour, principalmente se o que se busca é a diversão. Esta está lá e lindamente ambientada na Paris do fim do século 19.

Um Grande Momento:
O quarto de Jeanne d’Alcie, por favor.

Cyrano Mon Amour

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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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