Crítica | Streaming

De Salto Alto

(Tacones lejanos, ESP, FRA, 1991)

  • Gênero: Comedia
  • Direção: Pedro Almodóvar
  • Roteiro: Pedro Almodóvar
  • Elenco: Victoria Abril, Marisa Paredes, Miguel Bosé, Anna Lizaran, Mayrata O'Wisiedo, Cristina Marcos, Féodor Atkine, Pedro Díez del Corral, Bibiana Fernández, Nacho Martínez, Miriam Díaz-Aroca, Lupe Barrado, Javier Bardem
  • Duração: 112 minutos
  • Nota:

Pedro Almodóvar apresenta em De Salto Alto uma espécie de resumo de grandes signos reutilizados de maneira ainda mais evidente em anos posteriores. A relação materna enraizada de conflitos (Volver) e a sexualidade ambivalente de personagens ligados ao universo trans (Tudo Sobre Minha Mãe) talvez sejam dois expoentes que o cineasta, aos 42 anos, ainda apresentava de maneira crua, talvez com uma latência que sublinhava esses temas, mas que também nele não se aprofundava em suas complexidades psicológicas e de gênero. Ainda mais próximo do radicalismo de seu início, lá em 1991, o mestre espanhol em seu nono longa-metragem ainda guardava aquela agudeza anárquica, mas já aqui acalentava o melodrama explicitamente.

Sua protagonista é encontrada pela primeira vez num prólogo de sua infância, a pequena Rebeca, que abre o filme. Ali, em poucos minutos, já está exposto o conflito com sua mãe, a estrela Becky Del Páramo, que permeia toda a narrativa. Essa protagonista cresce e sua imagem diminuta adentra a sombra de Victoria Abril, que a viverá adulta, mostrando que os sentimentos contraditórios que ela nutre pela mãe desde a tenra idade ainda permanecem em sua constituição. Mãe e filha vão além da denominação sanguínea; são essencialmente mulheres e, como tais, alimentarão hoje muito mais uma rivalidade típica feminina do que uma relação maternal padrão.

De Salto Alto (Tacones lejanos, 1991)

Antes mesmo dos conflitos se estabelecerem, filha declara à mãe o que seria a frase-chave do longa: “até quando te odiei, nunca deixei de te amar”, ela não apenas resume a intensidade na qual Rebeca e sua mãe estão mergulhadas, como resume um tanto das relações de De Salto Alto como um todo, além de provocar uma reflexão a respeito de quanto o amor familiar pode ser uma construção social coletiva e muito mais envolta em obrigações do que poderíamos supor. Quando a convivência comum familiar não existiu por qualquer que seja o motivo, o que nasceria além do vazio e de uma possível projeção?

Também o teor imagético do filme caminha próximo ao exagero primal de Almodóvar, com seu vermelho berrante caracterizando não apenas a paixão, mas principalmente a intensidade e o calor dos sentimentos. Se o cineasta amadurecido de Dor e Glória agora calibra suas energias para uma mise-en-scene menos evidenciada em tons de cor em cenários, figurinos e luzes, a juventude almodovariana ainda se evidenciava em decisões na tela e ao longo da narrativa, demarcando esse DNA tão característico que se transformou em adjetivo, um que talvez o próprio se afaste progressivamente hoje.

De Salto Alto (Tacones lejanos, 1991)

De Salto Alto não é necessariamente um dos grandes e/ou melhores filmes do diretor, e revê-lo fora do olho do furacão do lançamento o coloca em posição menos inquisitória. Se trata de um roteiro com poucos elementos, bem concentrado em sua espinha dorsal de desdobramentos curtos. Seu impulso de foco é tão preciso que as ramificações possíveis para essa narrativa se arvorar não ganha força e se perde pelo caminho, como a relação entre o delegado e sua própria mãe, ou o próprio prólogo carece de elementos que serão cobrados pelo roteiro no futuro. Em nome da concisão, o filme perde a chance de amarrar sua história com pulso, e com isso sua própria centralidade fica comprometida.

Em se tratando de um típico Pedro Almodóvar e não um de seus discípulos, ainda assim temos grandes cenas vividas com brilho pelas protagonistas Victoria Abril e Marisa Paredes, bem como as apresentações de Fatal testemunhadas pela dupla. A presença tímida de um jovem Javier Bardem em uma das cenas cruciais do filme, em sutil homenagem a Rede de Intrigas, é uma delicada ironia não-proposital de um autor em plena manutenção do seu ofício que entregou em 1991 um protótipo para voos bem mais ambiciosos anos mais tarde, mas que, desde seu início, nunca deixou de investigar a alma humana e os lugares de desvio do amor e do desejo, muitas vezes resvalando na mágoa, para montar seus complexos mosaicos humanos.

Um Grande Momento:
Sexo pós-show.

Telecine

De Salto Alto

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
Botão Voltar ao topo