(Dolor y gloria, ESP, 2019)
Drama
Direção: Pedro Almodóvar
Elenco: Antonio Banderas, Asier Etxeandia, Leonardo Sbaraglia, Nora Navas, Julieta Serrano, César Vicente, Asier Flores, Penélope Cruz, Cecilia Roth
Roteiro: Pedro Almodóvar
Duração: 113 min.
Nota: 8 ★★★★★★★★☆☆

Às vezes, ou muitas vezes, o presente nos força a revisitar o passado. Envelhecer é difícil, perder referenciais, passar por mudanças. Ser você, no mesmo lugar, mas se sentir diferente e tentar se (re)descobrir. Dor e Glória é sobre esse passar do tempo e aquilo que isso traz.

Pedro Almodóvar, voltando à sua melhor forma, faz um filme para falar de si mesmo. Seu alter ego, Salvador, interpretado por Antonio Banderas, é um diretor que fez muito sucesso no passado, mas agora enfrenta um bloqueio criativo, além de uma depressão e várias dores no corpo que chegaram com a idade.

Dor e Glória vai e volta no tempo e acompanha o reencontro de um homem perdido, ao acessar sua infância, sua relação com a mãe, o cinema, seus parceiros de profissão, seus amores e sua obra. Sem nunca deixar de lado o presente, com todas as mazelas que vêm com a idade e aquela sensação de deslocamento que só o passar do tempo proporciona.

Mais do que reencontro, Dor e Glória é uma espécie de reconstrução, como se a jornada trouxesse alívio, compreensão e vigor para um “novo” homem, com seu cinema modificado assim como ele. Ainda estão ali características marcantes do autor, mas há uma sobriedade e uma nova construção que antes não estavam lá.

Almodóvar foi o responsável por transformar a cara do cinema espanhol para o mundo. Na liberação criativa após a ressaca de anos sob a ditadura de Franco, ele abusou de cores, trejeitos e escândalos. Seus personagens, sempre marcantes, muitas vezes estavam alguns tons acima. Mas seu cinema foi perdendo a força com o passar dos anos. A genialidade ainda era a mesma, os tempos é que eram outros.

Isso também está em Dor e Glória, no relançamento de seu filme de grande sucesso no passado e em toda a sua luta contra a dificuldade de criar no presente. E o diretor opta por assumir um novo tom, uma nova abordagem para transformar isso em experiência audiovisual. As cores ainda estão lá, mas não tomam conta de tudo, o humor é mais sutil, pontuado.

Importante dizer que muito do acerto do filme vem do elenco, consciente daquilo que o diretor espera, e uma atuação brilhante de Banderas como Salvador/Almodóvar. Nas sutilezas, o antigo colaborador do realizador espanhol se transforma e emociona.

Belo filme, Dor e Glória vem para resgatar toda uma carreira – um resgate afetivo, que reafirma e constrói, com um dos planos finais mais bonitos dos últimos tempos. Mais do que isso, é corajoso ao tratar da velhice e do passar do tempo, indo muito além da história particular que conta.

Um Grande Momento:
Revendo Federico.

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