Crítica | Cinema

De Volta para Casa

Receita de família

(Coming Home Again, EUA, KOR, 2019)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Wayne Wang
  • Roteiro: Lee Chang-rae, Wayne Wang
  • Elenco: Justin Chon, Jackie Chung, Christina July Kim, Leesa Kim, John Lie, Louis Ozawa
  • Duração: 86 minutos

Pensando sobre a ligação de gerações, a transmissão de conhecimento, talvez entre as de maior intimidade está a culinária. A delicadeza de passar para a nova geração os segredos dos sabores, os truques dos pontos, o tempo juntos observando os pequenos gestos, a separação dos ingredientes, a combinação dos temperos, as muitas tentativas e erros. É no corte perfeito de uma carne que De Volta para Casa leva o espectador que já teve essa experiência a um lugar na memória de cheiros, sabores e afetos. E é nesse lugar que deposita o seu luto, mais do que como despedida, como resgate.

O diretor Wayne Wang limita o espaço a uma casa, e alterna o tempo, dando às lembranças o caminhar próprio da perda ou dando ao filme o andar das lembranças. A montagem de Ashley Pagan e Deirdre Slevin acompanha o protagonista Chang-rae, vivido por Justin Chon, em um presente e passados que variam entre momentos antes de sua partida, seu retorno para cuidar da mãe muito doente e fases entre esses e outros momentos. Aproximação, delimitação e situação fazem com que a relação ganhe um novo contorno, uma nova configuração.

De Volta para Casa
Foto: Divulgação

A redescoberta dessa relação, passa pela troca forçada que a doença provoca dos lugares estabelecidos: a mãe não mais cuida, é cuidada pelo filho, e por sentimentos de identificação e estranhamento que estão distribuídos pelo filme. Misturados no tempo, também explícito, vão desenhando as personalidades, explicando posturas. Dos muitos momentos entre as duas pessoas fechadas naquela casa, mas não somente elas, pois há outros que as visitam, o protagonista se transforma. Mesmo na não linearidade, sua postura, mais do que suas palavras, demonstra essa mudança.

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O longa é baseado na experiência pessoal do escritor Lee Chang-rae, que abandonou seu trabalho em outra cidade para cuidar da mãe com câncer em seus últimos momentos de vida, e a culinária, o ato de cozinhar transcende manter a mãe por perto e sua permanência, enquanto ainda viva e depois de sua morte, reflete a essência do filme. As etapas do preparo, o processo de tempero, o tempo de cozimento podem muito bem ser uma tradução de como aquele amor foi esmiuçado e se viu pronto e com um sabor inesperado. Em outra metáfora, igualmente culinária, é aquela carne do começo do filme, que se fatia com tanta precisão, levando até o osso do qual não se pode desgrudar.

De Volta para Casa
Foto: Divulgação

É curioso olhar para Wang, depois de suas incursões por um cinema tão diferente, de comédias românticas comerciais, com títulos como Encontro de Amor e Férias de Minha Vida, ou nem tanto, com Mil Anos de Orações,  e tentativas indies como A Princesa do Nebrasca, ou o vistoso Flor da Neve e o Leque Secreto, assinar um filme tão minimalista e pessoal quanto De Volta Para Casa, onde a observação é o principal elemento de conexão com o público. Inusitado e arriscado para um realizador que dirige para uma audiência de consumo mais rápido.

Em sua sensibilidade ao acessar a vontade e a não-vontade de estar daquele homem, o perder-se e encontrar-se, e a criação de uma nova história e uma nova pessoa, o diretor parece também encontrar o seu próprio prato especial, cujo tempero e a fervura levam a um outro lugar. Se Chang-rae reencontra-se com um passado familiar, próprio, vivido, Wang encontra-se com um passado cinematográfico alheio, apreciado, mas apenas consumido. De certa maneira, ele deixa de lado seu caminho e assume um outro, é a sua volta para casa também.

Um grande momento
Uma visita católica

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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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