Crítica | CinemaDestaque

Desaparecidos

Quando se quer falar de tudo

(Matin calme, FRA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Suspense
  • Direção: Denis Dercourt
  • Roteiro: Denis Dercourt, Marion Doussot
  • Elenco: Olga Kurylenko, Yoo Yeon-Seok, Ye Ji-won, Choi Moo-Seong, Lee Seung-Jun
  • Duração: 88 minutos

Inspirado no romance policial “The Killing Room”, do prolífico escritor Peter May, Desaparecidos é um policial com todos os elementos para prender o espectador interessado no gênero. Assassinatos em série, uma investigação complexa que desemboca em algo muito maior do que parecia e uma trama paralela que une dois especialistas que acabam se envolvendo. Daria tudo muito certo se não fosse a confusão do roteiro, que leva a história original da China para a Coreia, transforma e resume a relação de Margaret e Li Yan, aqui Alice e Park Jin-ho, vividos por Olga Kurylenko (Oblivion) e Yoo Yeon-Seok (New Year Blues), e se atrapalha nos muitos detalhes de seu mistério.

O diretor francês Denis Dercourt tem a preocupação em manter esse encontro de nacionalidades, e não deixa de ser interessante ver algumas das diferenças que ele quer pontuar entre a França e a Coreia do Sul, desde que se desconte seu apego à terra natal, obviamente. Do mesmo modo que é curioso perceber o quanto ele deixa que o cinema sul-coreano de ação, de certo modo, influencie o seu filme em algumas passagens. Há momentos em que o suspense é eficiente, como na apresentação do caso, e outros em que a estética consegue se impor.

Desaparecidos (2021)
Divulgação

O grande problema de Desaparecidos é mesmo a pressa e a falta de uma conexão real entre suas histórias paralelas. Os fatos vão se sucedendo de maneira gratuita e pouco convincente, não há elaboração ou aprofundamento. Há saltos injustificados, personagens aleatórios, e momentos que só estão ali porque, na verdade, aquele é o terceiro livro de uma série que foi mal adaptado e os protagonistas deveriam ter um background que nunca existiu de verdade. É aquele tipo de coisa que vai minando o roteiro e deixando-o frouxo e pouco envolvente. 

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Kurylenko e Yeon-Seok até se esforçam para manter as coisas e dar corpo à patologista e ao policial que interpretam, mas tem pouco material disponível para trabalhar. Menos ainda têm os coadjuvantes, em especial Ye Ji-won (Filha de Ninguém) e Lee Seung-Jun (da série Memórias de Alhambra), que são exigidos e não têm de onde tirar elementos concretos para suas personas.

Desaparecidos (2021)
Divulgação

No mais, Desaparecidos segue o padrão, em planos e trilha que marcam o suspense e num crescente que vai determinando uma trama policial que perde pontos por não ser imprevisível. O modo como o enredo se desenrola dá saudade dos primeiros minutos, porque se tem a certeza de que o filme poderia ser mais do que é, impressão que fica também com algumas boas tentativas visuais do diretor, mesmo que levem ao batido, como no sonho-revelação de Alice. Mas Dercourt queria falar de tudo, queria elaborar uma trama que valesse por duas e com uma delas resumindo uma relação que já precisava estar muito mais desenvolvida. O resultado não dá tão certo como ele queira. 

Assim, o que faz com que o longa sobreviva é mesmo a história por trás dos assassinatos, ainda que ela também esteja longe de ser perfeita. Como outras tantas do gênero, ela consegue provocar uma certa curiosidade pela resolução. Chegará frustrada? Sim. Mas nos fará ficar ali até os créditos finais.

Um grande momento
O órgão de Jacarta

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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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