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Além da Lenda

Com toda a inocência

(Além da Lenda, BRA, 2022)
Nota  
  • Gênero: Animação
  • Direção: Marília Mafé, Marcos França
  • Roteiro: Bruno Antônio, Erickson Marinho, Ulisses Brandão
  • Duração: 86 minutos

Não tem como condenar um projeto que fale sobre a cultura e o folclore brasileiros. É até um ponto extra que a estreia de Além da Lenda carrega consigo, a sensação de que existe alguém nesse país interessado em não deixar elementos tão ricos da nossa História morrerem. É verdadeiramente emocionante constatar o que estão tentando fazer os diretores Marília Mafé e Marcos França, que é manter a luz em um período de escuridão. É como se eles estivessem na gênese de sua narrativa, e sua motivação fosse inspiradora para seus personagens, ou vice-versa. A sensibilidade que envolve as intenções do projeto parecem saltar da tela e alcança em diferentes polos adultos e crianças.

Dito isso, é preciso reconhecer não apenas a importância da produção, como seu poder de comunicação. Trata-se de um universo tão vasto, cujo trato com o público raramente é paternalizado – Além da Lenda é muito livre na sua relação com o espectador, não diminui a inteligência do público que compõe seu quadro de interesse. Ao mesmo tempo, o filme não idiotiza seus personagens nem os coloca como mais acessíveis diante de uma nova geração que o desconhece. Um dos grandes achados ali é reconhecer que a cultura brasileira perdeu espaço para uma ideia de internacionalização folclórica (e linguística, e habitual, e muitos outros tipos de acesso a estrangeirismos), e tentar retomar o diálogo. Ou seja, o filme assume o que a sociedade fez com as crianças e adolescentes, e avança em um processo de redescoberta de sua identidade.

Além da Lenda
Divulgação

O acesso ao universo descrito, e suas múltiplas camadas de realidade, são validados por um roteiro que não o adentra em processo de apresentação. Tudo que está no campo das lendas, age com a propriedade de quem já tem acesso a todo o material. É maduro que o roteiro abra mão de explorar o encontro entre o onírico e o concreto não seja a base da narrativa, mas um dos elementos da mesma. Assim sendo, não existe ênfase em uma explicação tácita para o espectador, que é tratado com igual maturidade dispensada aos personagens. Aos poucos, tudo se conecta e complementa; o preço que se pode pagar por essa independência é uma perda gradual de conexão de alguma fatia do espectador, que desejaria soluções e definições mais claras e rápidas. Mas não dá pra negar a integridade do todo, ao optar pela forma apresentada.

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A qualidade da animação, que já era vista na série de TV no qual o longa se baseia, é menos sofisticada do que está acostumado o público das animações estrangeiras – e nem estou citando especialmente nenhuma. Há uma modéstia e o reconhecimento, talvez, de que uma competição estética não é possível. Então a produção assume pra si uma inocência de traços, quase como se estivéssemos assistindo a um elo perdido entre tempos e maneiras de manipular o universo animado. Quem se prender a esse aspecto visual de Além da Lenda, de verdade não conseguirá avançar no processo que o filme encampa, de resgate da oralidade da contação de histórias. Olhando por esse âmbito, inclusive, o título reaquece sua própria forma, já que tudo acaba ganhando um ar de reconhecimento de um campo cultural que precisa de revitalização, e de voltar a ser descoberto.

Além da Lenda
Divulgação

Em paralelo a tudo isso, temos a inocência do projeto como um todo, que se situa na cinematografia como um bicho estranho mesmo, quase inédito. Pelo tudo que já foi colocado, sua textura não apresentar as condições mais sofisticadas, seu roteiro não ter uma lapidação mais correta, suas decisões narrativas apresentarem algum entrave com o todo, está em um campo de aceitação, para algo que se entende menos comum. O que falta ao cinema brasileiro, ao contrário das gritas que escutamos com frequência (qualidade sonora, qualidade narrativa, principalmente), é a ausência de uma ousadia que nos faça perambular por outras searas. Além da Lenda não é apenas uma animação produzida no Brasil, mas um exemplar cinematográfico que busca ressignificar conceitos culturais quase considerados perdidos, e adentra sua premissa com essa ideia. Ao meu ver, essa disposição já abre os caminhos para seus autores continuarem tentando alcançar seus espaços. 

Um grande momento
O roubo do livro

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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