Crítica | Streaming

Diorama

O caos do (des)amor

(Diorama, NOR, SUE, 2022)
Nota  
  • Gênero: Comédia, Drama
  • Direção: Tuva Novotny
  • Roteiro: Tuva Novotny
  • Elenco: Pia Tjelta, David Dencik, Claes Bang, Sarah Dawn Finer, Sara Shirpey, Sverrir Gudnason
  • Duração: 99 minutos

Na parede do quarto do casal, acima da cama, tem um quadro onde dois portões estão unidos por uma corrente muito grossa. Unidos quase contra a vontade deles, mas graças a um artefato muito mais resistente do que seus desejos. Esse plano está inserido mais ou menos na metade de Diorama, estreia de hoje da Netflix, curiosíssima, sobre coisas muito comuns na vida de qualquer ser humano: amor, casamento, relacionamento, família, filhos, ciúme, cumplicidade, vivência. E o fim disso tudo. Ao observar o futuro e deparar-se com o destino cruel dado ao que resta de uma vida a dois, o que então fazer agora que você voltou a ser só um? No balanço dos anos, o que resta de uma relação não é apagado, mas transforma-se numa espécie de fóssil, que pode ser esquecido no fundo de uma caverna ou descoberto e tratado como um precioso bem da humanidade. 

Na estrutura do drama (ou seria uma comédia?), não está no entanto a certeza do realismo. Como o próprio título já diz, é uma história contada a partir de apontamentos de um grande diorama, que não passam de maquetes em larga escala da representação de um cenário. No caso aqui, um grande palco onde encenamos uma história aparentemente banal, de fundo absolutamente universal. Não é teatro filmado, não é alegoria de artifício permanente, mas uma versão não-condensada entre esses elementos, cada qual disposto em seu ambiente. Aos poucos, percebemos que as encenações artificiais comentam o passo a passo do desmoronamento familiar, da gênese até uma possível finitude; o antes, o durante e o depois. 

Tuva Novotny é uma atriz sueca que está em sua terceira incursão na direção, de maneira muito ousada e perspicaz, em uma seara onde basicamente tudo já foi contado. Ontem, na sessão de Ingresso para o Paraíso, as consequências de uma separação, e a relação de um casal pós-história de amor, foram colocadas sem flashback, a partir da perspectiva do agora. Em Diorama, o painel está completo: há a empolgação do primeiro ato, o cansaço e o desestímulo do segundo, e a fúria e o sofrimento do terceiro, onde o filme concentra maior atenção. Não há espaço para novidade no que diz respeito a essas colocações, mas sua autora está disposta a arregaçar as mangas para tentar uma forma menos óbvia do que já foi tratado a respeito do desamor. 

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Esses dioramas do título são como uma viagem científica ao comportamento em sociedade dos casais e suas relações. De apresentações com a participação dos primatas que nos antecederam na escala evolutiva, passando pelo homem pré-histórico, até chegar nas cobaias animais, Diorama mantém o drama no drama, e suas representações em mosaico vivo como o momento em que temos uma perspectiva bem humorada a respeito do caos. É quando o filme se apropria da alegoria, muitas vezes científica e outras tantas puramente jocosa, do quanto não conseguimos ultrapassar nossas histórias pessoais sem parecer extremamente associada a tantas outras. As brigas, as discussões, a agressão velada ou explícita, elas nos mostram como seres sem nenhuma personalidade, jogando baixo em todos os casos, em qualquer gênero. 

A história de Frida e Bjorn é igual a tantas outras. Apaixonados na juventude, tiveram filhos e formaram uma família, para se deixarem levar pela falta de diálogo, o cansaço da rotina, a perda de interesse coletivo e a constatação de tudo isso. Fica a questão universal: o amor leva as pessoas a se unir em comunhão, pelo amor elas compartilham o desejo de união, graças ao amor elas procriam e tentam espelhar nos descendentes esse mesmo amor… e isso tudo acaba por destruir o amor. Questões muito simples acabam engasgadas, tanto o homem quanto a mulher tem razão e não tem razão, as cobranças são válidas mas o cansaço em relação a elas também o é, e a cada nova certeza absoluta, cria-se então uma nova versão de inverdades em relação ao outro. É um moto-perpétuo já conhecido por todos, mas que nunca perde a validade. 

Os desempenhos de Pia Tjelta (premiada em San Sebastian pelo seu encontro anterior com Novotny, Blindsone) e David Dencik (de 007: Sem Tempo para Morrer) são admiráveis, transmitem toda a aflição de estar em uma situação-limite junto ao grande amor de sua vida. A cena da discussão pós-reunião escolar é um brilhante portfólio do trabalho de ambos, e de como a diretora alcançou os pontos exatos no seu tensionamento a respeito das relações entre casais, e ex-casais. O que torna Diorama diferente e acrescenta o toque especial ao projeto são justamente as passagens envolvendo a realização do título, que mexem com ironia a discussão eterna entre homens e mulheres em sociedade. De maneira extravagante, o filme disseca esses casais se amando e se odiando, querendo mais do que tem, um do outro, e aprendendo sempre o que Nancy Meyers ensinou – alguém tem que ceder, pro bem e pro mal. 

Um grande momento

Sobrevivência

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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