Crítica | Cinema

007 – Sem Tempo Para Morrer

(No Time to Die, EUA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Ação
  • Direção: Cary Joji Fukunaga
  • Roteiro: Neal Purvis, Robert Wade, Cary Joji Fukunaga, Phoebe Waller-Bridge
  • Elenco: Daniel Craig, Rami Malek, Léa Seydoux, Lashana Lynch, Ralph Fiennes, Christoph Waltz, Ben Whishaw, Naomie Harris, Jeffrey Wright, Billy Magnussen, Ana de Armas, David Dencik, Rory Kinnear, Dali Benssalah
  • Duração: 163 minutos

Um agente fleumático, sedutor, inteligente e que simbolizava a soberania do ocidente capitalista perante o resto do mundo foi o personagem criado pelo integrante da inteligência naval britânica e jornalista Ian Fleming. Eram os anos 50 do século 20, uma época onde a humanidade, após o cataclisma social, político e humano que foi a Segunda Grande Guerra Mundial, se reestruturava e o mundo se dividia em dois polos antagônicos: a Europa, mais especialmente a União Soviética, e os Estados Unidos da América. Bond, James Bond, era então a resposta ideológica e ficcional, um herói numa realidade fracturada. Uma inspiração para os homens que desejavam viver aquelas aventuras e as mulheres que queriam estar na cama dele. Correto? Por um tempo foi.

E quem melhor vestiu essa persona foi o galã escocês Sean Connery — mesmo que o cineasta Cary Joji Fukunaga acredite que hoje ele não passaria de um estuprador. Anacrônico e datado, o Bond do século 21 luta então pela sobrevivência. Para seguir sendo relevante e, ainda assim, se rebelando quando necessário; usando sua licença para matar para inclusive ir contra as ordens diretivas de sua majestade – ou melhor, do parlamento britânico. E eis que, de 2006, aos 37 anos, até este 2021, quando completa 52 anos, o atual marido de Rachel Weisz, também conhecido como Daniel Craig é o 007. E que personificação única ele traz, como o James Bond que melhor conhecemos, mais sentimental, mais humano, que mais se fere (e também machuca), que se permite amar e ser amado de verdade e que limpa a poeira do paletó bem cortado e mantém a relevância.

007 - Sem Tempo para Morrer
Cecilia Barroso | Cenas de Cinema Nicola Dove © MGM

Imponente e envolvente como o Bond de Craig, Sem Tempo Para Morrer é tão bem azeitado que suas mais de 2h30 de duração são suportadas sem grandes percalços ou incômodos com o ritmo da narrativa. Fukunaga assumiu o filme quando Danny Boyle declinou do projeto e, apesar de algumas desconfianças, — semelhantes até as que envolveram Craig à época do Cassino Royale, quando até então o astro era habituado a estrelar séries e filmes mais independentes — não só dirigiu como escreveu o argumento e roteiro deste longa, muito próximo do coração e das opiniões do ator principal. Foi de Craig a sugestão em trazer uma mulher para integrar o time de roteiristas, talvez traumatizado com ocorrências como as gravações de Quantum of Solace, que foi rodado no meio da Greve dos Roteiristas em Hollywood e cujo processo de produção de iniciou sem script; ou talvez com a falta de diversidade em especial entre as “bondgirls”, as mocinhas ou femme fatales que contracenam com James. Com exceção da Vesper Lynd de Eva Green, todas careciam de mais substância — mesmo a promissora Madeleine Swann de Lea Seydoux que aparece em Spectre se assemelhava a um rascunho de uma mulher, a exemplo de James, também alquebrada.

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Falando então de 007 contra Spectre, lançado cinco anos atrás e escrito por uma trupe de homens (John Logan, Neal Purvis, Robert Wade e Jez Butterworth), a incorporação de uma mulher, sendo ela nada mais nada menos do que uma das vozes dessa geração, Phoebe Waller-Bridge, fez muito bem a franquia. Pela intersecção de Phoebe, em colaboração com o próprio Cary e a dupla Purvis/Wade — que escreveu todos os filmes do 007 de Um Novo Dia para Morrer pra cá -, Sem Tempo Para Morrer se coloca tranquilamente no topo do panteão dos filmes bondianos. Phoebe inclusive se junta a Joanna Harhwood, uma das roteiristas de Dr. No, sendo apenas a segunda mulher a escrever para 007. Quem sabe ela (já experimentado no gênero graças a série Killing Eve) faça mais do que reescrever arcos de personagens e trabalhar nos diálogos em um ri no filme.

Felizmente por conta do sagaz roteiro e do trabalho da diretora de elenco Debbie Williams todos os ótimos atores do elenco de Sem Tempo Para Morrer têm seu espaço, claro que alguns conseguem ser mais do que coadjuvantes e agregam tanto ao arco de James como emprestam camadas de profundidade dramática à trama, como Jeffrey Wright (o “irmão” dele, agente da CIA Felix Leiter), Ralph Fiennes (M ou Mallory o chefão do MI-6) e Paloma (Ana de Armas). Faltou desenvolver um pouco mais à “007” de Lashana Lynch, Nomi, que aqui funcionou mais como alivio cômico, rival e aprendiz do comandante James Bond, espião aposentado mas logo reintegrado. O Sr. White/Blofeld de Chris Waltz não tem muito tempo de tela mas cai muito bem dentro do que se propõe para o personagem, que nesse filme opera como um gatilho para a eclosão da história em seu clímax. Profundidade ou um trabalho esmerado de atuação não pode se dizer que é o que ocorre com o Lyutsifer Safin de Rami Malek.

007 - Sem Tempo para Morrer
Cecilia Barroso | Cenas de Cinema Nicola Dove © MGM

Cary Joji Fukunaga nos leva ao meio da ação como em Beasts of No Nation e sabe dar tempo para sentimentos eclodirem nos personagens. A câmera frenética, o trabalho do diretor e do fotografo Linus Sandgren, além de toda a equipe técnica tem um esmero que só torna a experiência do filme mais imersiva. Não estamos assistindo à uma trama de espionagem — estamos na pele de Bond, segurando a Walther ppk com silenciador. São sequencias em one single shot câmera, planos sequência e uso de steady cam com muita sabedoria, tornando as cenas de ação em videogame — como perfect dark ou mesmo o clássico 007 Goldeneye da Nintendo. Claro que isso com o suporte ainda dos efeitos visuais são da ILM (Industrial Light and Magic/Lucas films).

Falando da música, a melancolicamente bela canção de Billie Eilish e Fineas casa muito bem como o clima de despedida agridoce. Hans Zimmer como trilheiro cria algumas coisas novas e reaproveita faixas de outros filmes, em especial as compostas pelo maestro John Barry, como a faixa acidental de “Diamonds Are Forever” e a canção “We Have All The Time in the World” (cantada por Louis Amonstrong em A Serviço Secreto de Vossa Majestade), que está no epílogo do filme, com o Aston Martin clássico percorrendo uma encosta bela. Inclusive as paisagens paradisíacas surgem aos borbotões em Sem Tempo Para Morrer: a medieval cidadela de Matera na Itália, Kingstown na Jamaica — que foi onde Fleming morou um bom tempo –, Noruega e até uma olha perdida no pacífico, uma referência ao Dr. No. A roupa de Malek também se assemelha à do vilão vivido por Joseph Wiseman no filme de 62.

“É uma boa vida, não é?”

007 - Sem Tempo para Morrer
Cecilia Barroso | Cenas de Cinema Nicola Dove © MGM

Não só as decisões e caminhos de Bond estão em xeque como as de Madeleine. E o elo entre eles não torna a trama piegas, fortifica o sacrifício já que coloca bem mais do que um romance em jogo. Há tempo inclusive para leveza, com Bond brincando com a amada: “Se apaixonou pelo meu senso de humor peculiar ou meu timing ruim?”

E o anti climax acompanhou boa parte do processo desse Sem Tempo Para Morrer, constantemente adiado por conta da pandemia e de outros poréns como contam os produtores executivos Barbara Broccoli e Michael G. Wilson — para saber mais aconselho assistir ao documentário Ser Bond, da AppleTV+. A própria despedida de Craig é doída e entendida como algo que não é mais possível adiar, já que o tempo, o ciclo dele, já deveria ter sido encerrado em Spectre. Corta de abril de 2020 para este setembro de 2021, após alguns copos de martini (batido, não mexido ou misturado, como manda o gosto de James) e Craig feliz pelos 15 anos como Bond. Um espião digno, bruto, frágil, elegante, falho mas também nobre. E que além de corpos pelo caminho, planos maquiavélicos de dominação do mundo desfeitos e corações partidos, também deixa saudades.

007 - Sem Tempo para Morrer
Cecilia Barroso | Cenas de Cinema Nicola Dove © MGM

De Cassino Royale até Sem Tempo Para Morrer saem estereótipos, entram agentes, amantes e inimigos que personificam o que de melhor e pior James Bond é nessa fase. Inclusive a grande ameaça que é o projeto Heracles, pensando pelo MI-6 como uma forma de “diminuir danos” e que se potencializa como um mega vírus genético que ataca o DNA e se comunica demais com a era do COVID-19 e do temor dos inimigos invisíveis.

A Fase Craig precisa ser experimentada integralmente para ser absorvida em sua completude, diferente dos títulos anteriores, que eram aventuras fechadas em si. Sem Tempo Para Morrer empresta, no que está em quadro e no que está fora do filme, um sentido de trajetória circular. Madeleine em determinado momento fala para o 007 que ele nunca estará pronto para superar o passado se continuar olhando por cima do ombro, desconfiando. Ele não se entrega e quando o faz, tragicamente recebe uma rasteira da vida. Porém, o que Daniel Craig/James Bond nos deu não foi desilusão, no lugar, foi segurança e motivação para esperar pelo próximo filme por saber que algo genuíno estaria por vir. Existem, claro, percalços na construção da trama, em especial no arco e na caracterização do vilão venenoso, mas o filme não é vazio de sentido a ponto de não agregar um bom enredo de espionagem para compor uma bela celebração à franquia e, em especial, ao impacto de Daniel Craig de maneira digna e emocionante.

Um grande momento
A perseguição na floresta, a última ligação, os olhos parecidos…

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Lorenna Montenegro

Lorenna Montenegro é crítica de cinema, roteirista, jornalista cultural e produtora de conteúdo. É uma Elvira, o Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema e membro da Associação de Críticos de Cinema do Pará (ACCPA). Cursou Produção Audiovisual e ministra oficinas e cursos sobre crítica, história e estética do cinema.
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