Crítica | Streaming

Dois

A troco de quê?

(Dos, ESP, 2021)
Nota  
  • Gênero: Suspense
  • Direção: Mar Targarona
  • Roteiro: Cuca Canals, Christian Molina, Mike Hostench, Daniel Padró
  • Elenco: Pablo Derqui, Marina Gatell, Esteban Galilea, Chincho Serrano, Kandido Uranga
  • Duração: 70 minutos

Nossa, como começar o texto de um filme de 1 h 10 que na verdade deveria ser um curta metragem mas que não necessariamente chega a cansar, é só uma ideia esticada mesmo? ‘Dois’ acaba de entrar na Netflix, produção espanhola estranhíssima que com certeza vai chamar a atenção de muita gente para sua sinopse digamos singular, mas que não tem nada de muito interessante para além da premissa. Esse é daqueles desafios como crítico: como tirar um texto de um filme que é tão preto no branco, não apresenta nada de muito inovador enquanto cinema e que só quer provavelmente usar a grana investida para contar uma história que rapidamente cairá no esquecimento de uma plataforma de streaming?

Mar Targarona é uma premiada produtora veterana em seu quarto título como diretora e roteirista, que entrega um produto de rápido consumo para a Netflix, literalmente. O filme funciona quase como uma historieta que poderíamos contar, um causo ou uma lenda urbana: um casal acorda nu e costurados na altura do abdômen, e precisam descobrir uma forma de se separar e o motivo que os levou a estar naquela situação. Essa narrativa é desenvolvida com algum interesse e isso acaba por gerar no espectador uma mesma dose de curiosidade, mas o longa se resume a isso e nem tenta ser algo além disso – ao menos, tem muita honestidade envolvida.

Apenas dois atores em cena, apenas um cenário, e uma narrativa muito direta, o filme poderia ser uma metáfora sobre a toxicidade masculina, poderia ser uma reflexão sobre como poderíamos trabalhar nossa empatia para além de quando estamos envolvidos nos eventos, poderia ser uma análise dos tempos atuais onde as pessoas não aguentam mais suportar a solidão. O filme é muito mais raso do que isso tudo, porque seu interesse não é elucubrar grandes pensamentos sociais humanos em 2021, e sim apenas distrair o público com uma história bizarra que poderíamos ler em algum passeio pela ‘deep web’ de um país do leste europeu.

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Dois, de Mar Targarona
Rodar y Rodar

Estranhamente escrito a seis mãos (sério que precisou disso tudo para elaborar as saídas desse “intrincado” jogo), ‘Dois’ tem trabalho fotográfico que poderia explorar mais a imaginação do espaço, como um quadro de possibilidades pouco aproveitadas em contexto geral. O filme apresenta as ideias e não as desenvolve imageticamente, parecendo apenas servir seus progressos de maneira especulativa sem ir até o limite de cada proposição, como a que aproveita o espaço cênico de cima. Parece realmente uma grande combinação para que tudo seja feito da maneira mais rápida possível, sem demandar nenhum tipo de esforço intelectual.

O casal de atores, Pablo Derqui e Marina Gatell, não tem espaço para arroubos dramáticos em cena, mas funcionam bem em suas gradações de desespero que tentam aumentar a adrenalina da produção. Estando colados durante todo o tempo em cena, não tem muito como exigir algo além do que eles oferecem, doses maciças de conflito. Funciona que a personagem de Gatell não consiga nunca comprar a verdade da de Pablo, desconfiando de 10 em 10 minutos se o seu “companheiro de costura” não está envolvido com o acontecido. Soa até humana essa reação dela, que poderia até buscar uma discussão sobre assédio, mas o filme não só descarta isso como coloca a personagem em desvantagem ao fazê-la ceder, aos poucos.

No fundo, ‘Dois’ deve ter alguma maravilha guardada por baixo de sua aparente simplicidade, mas o que fica na superfície é que toda a parca discussão que o filme abarca rapidamente sobre o algarismo ‘dois’ se resume a tantas representações clichês de dualidade, terminando enfim no plano igualmente óbvio e que não motiva o aprofundamento de qualquer debate, a partir daquele quadro. É até desanimador que uma ideia tão curiosa seja palco para um desenlace tão assemelhado a qualquer suspense de beira de estrada dos anos 90.

Um grande momento
Quebrando o espelho

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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