Crítica | Streaming

Com Amor, Anônima

Delicinha teen para todos os públicos

(Anónima, MEX, 2021)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Maria Torres
  • Roteiro: Maria Torres
  • Elenco: Harold Azuara, Annie Cabello, Estefi Merelles, Alicia Vélez
  • Duração: 100 minutos

Vez por outra, um daqueles filmes deliciosos de ‘high school’ invadem a telinha da Netflix, de maneira despretensiosa e conquistam o espectador pelo pé com uma trama nada original mas conduzida com esperteza, talento de seus intérpretes e uma certa sagacidade moderna. Tudo isso pra encontrar temas universais que se comunicam com qualquer parte do mundo e, por um acaso, dessa vez vieram do México. ‘Com Amor, Anônima’ é baseado em livro de sucesso e ganha pontos com a honestidade com que trata seus personagens, suas situações, a busca pelos sonhos que é o cerne da obra e amarra esse pacote com um elenco disposto a dar credibilidade a cada linha pensada.

A diretora Maria Torres está em segunda empreitada na direção, mas mostra aqui fôlego para apresentar um universo jovem ao público a que se destina, e o faz sempre com muita propriedade. A relação de cada um em cena com os mais velhos, sejam pais, professores ou responsáveis de alguma ordem, é permeada pelos conflitos da idade e as inquietações pessoais, mas sem transformar as situações nos campos de batalha comuns em produções teen que almejam comunicação direta. Porque o que Torres é isso sim crível – pais e filhos não querem matar uns aos outros, mas entender conflitos que já não os pertence, para que enfim possam compreender e apoiar seus entes.

Com Amor, Anônima
Gerardo Maldonado R.

O filme não se furta em mergulhar na tecnologia que pauta muitas das relações hoje, estando sempre na raiz da discussão. Dois jovens se conhecem sem querer através do whatsapp e precisam lidar com a atração que sentem pelo desconhecido; o protagonista masculino tem sonhos em levar internet a lugares carentes, a protagonista feminina sonha em ser cineasta. ‘Com Amor, Anônima’, sem fazer muito alarde, apresenta uma juventude conectada e esperta sem bradar a plenos pulmões, e o realiza com naturalidade, porque entende que no mundo de hoje todos os movimentos pautados pelo filme estão naturalizados pela sociedade.

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Com uma montagem pop e moderna que não se pretende original (porque conversas de whatsapp projetadas no plano existem desde que o whatsapp existe), o filme ganha a adesão do seu público justamente por entender que aquela linguagem já foi aprovada. A agilidade que a edição aplica não se resume a dar injeção de adrenalina no longa, que muitas vezes aborta histórias adjacentes que estavam prestes a nascer; o filme tem um ritmo particular que nos permite ao mesmo tempo acompanhar a velocidade das relações e conhecer com cuidado cada um de seus personagens, como Richie, que nunca declara suas intenções frontalmente, mas que é lido pela qualidade com que a produção o apresenta.

Com Amor, Anônima
Gerardo Maldonado R.

O elenco é inteiro um achado, onde cada um de seus muitos coadjuvantes podem brilhar, e olha que estou falando de um grupo enorme de pessoas. São mais de um grupo de pais, professores, diretor da escola, alguns amigos, além dos protagonistas muito carismáticos. O trabalho de direção de atores nos permite apreciar o consistente trabalho de Jesus Guzman e Veronica Merchant como os pais da protagonista Valeria, assim como o de Harold Azuara como o já citado Richie, a cantora Estefi Merelles, e os protagonistas Annie Cabello e o tiktoker Ralf estão em profunda consonância estética, com a cobrança do público, sem abrir mão do talento.

‘Com Amor, Anônima’, com as limitações que o gênero coloca em uma produção como essa, no sentido de apresentar material inédito para um público que é assolado de material diariamente, muitas vezes de gosto duvidoso e cheio de repetições dentro da própria Netflix, é um acerto claro. Aqui, tem capricho de sobra não apenas atrás das câmeras, como na frente delas apresentando uma história sedutora produzida para um nicho mas que pode ser apreciada por toda a família, ou mesmo por adultos solteiros. Porque a matéria prima dos sonhos, materiais ou emocionais, estão correndo nas veias de todo mundo que está vivo, e isso é a mola mestra dessa produção simpaticíssima.

Um grande momento
Bebedeira na piscina

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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