Crítica | Cinema

Dora e Gabriel

É um pouquinho de Brasil…

(Dora e Gabriel, BRA, 2020)
Nota  
  • Gênero: Suspense
  • Direção: Ugo Giorgetti
  • Roteiro: Ugo Giorgetti
  • Elenco: Ari França, Natalia Gonsales
  • Duração: 90 minutos

Às vésperas de completar 80 anos, Ugo Giorgetti não poderia estar em momento mais prolífico. Em duas semanas já teremos filme novo do cineasta paulistano estreando nos cinemas (Paul Singer – Uma Utopia Militante), e hoje as salas recebem essa sua nova comédia criminal, Dora e Gabriel, pra mostrar que idade não significa nada e que um veterano como ele não pensa em descanso tão cedo. Autor de clássicos do cinema paulistano como Festa e Sábado, ainda há espaço para uma tentativa válida de experimentação dentro de sua cinematografia, com esse retrato muito atual sobre a violência urbana em meio a um universo absurdo – e aqui especificamente, claustrofóbico.

Acostumado a lidar com micro exigências temporais e/ou estéticas, já tendo anteriormente mostrado personagens em situação-limite de atrofia espacial, Giorgetti se impõe a mais um desafio, que limita não apenas o espaço físico como também a capacidade e criação, reduzida a um horizontal porta-mala. Como reduzir suas capacidades expansivas, seu escopo estético e manter o interesse do espectador, é a proposta que ele tenta desenvolver, enquanto filma uma fatia de Brasil que põe pra fora suas diferenças e suas semelhanças nesse espaço onde tão pouco pode acontecer, mas ainda assim pode dizer.

Dora e Gabriel
Foto: Divulgação

Muito rapidamente, Dora e Gabriel se mostram trancados mais do que no interior de um carro escuro, sem pistas sobre seu paradeiro; nossos protagonistas e únicos em cena são reféns de Brasil, em todas os nossos revezes, dificuldades, temores, horrores e aflições, brevíssimas alegrias e constante sentimento de abandono e desesperança. Em seus diálogos sobre a sua situação tão limitadora, se esgueiram as contradições que todo brasileiro hoje enfrenta, combate e tenta sobreviver. Com a pandemia, até a exasperação e o sufocamento pelo qual sofre Dora é um ponto de referência de um filme que chega e se torna oportuno de imediato.

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Giorgetti já radiografou o país antes em suas comédias que exalam São Paulo, mas aqui ele metaforiza todo o país em um dos ambientes mais exíguos em que um Estado já foi encaixado. Mesmo tendo sido filmado bem antes do atual estado das coisas, ainda mais trágico que antecipadamente já fomos na História recente, já vínhamos sendo desgovernados há algum tempo, servindo de inspiração fácil para compreender nossa masmorra particular. Quando esses dois personagens são encerrados naquele espaço minúsculo e precisam sobreviver por um tempo desconhecido em uma espécie de quarentena pocket, o que sai dessa convivência são todas as emoções possíveis, partindo do atrito gratuito a uma empatia recíproca, absolutamente tocante.

Dora e Gabriel
Foto: Divulgação

Ary França e Natalia Gonsales são os artífices que vestem os avatares propostos pelo diretor para contar essa história de clausura não apenas de Dora e Gabriel, mas de toda uma nação na atualidade. São dois gêneros, duas origens, uma brasileira e um imigrante libanês, duas história de vida que passam por temas da atualidade – a violência desenfreada das cidades, a separação entre homens e mulheres na sociedade atual, a necessidade de afeto em tempos solitários, entre muitos outros – sem incorrer em generalizações e simplificações em suas abordagens, mesmo com a duração igualmente diminuta. Na verdade, mais do que a 1 h e 20 de duração apresentada, o ritmo seria comprometido.

Sem atropelar as entradas de suas conexões com o contemporâneo, e ainda encontrando momentos de silêncio e contemplação, Dora e Gabriel passa uma ideia de desafio cumprido, acima de tudo. Com muitos elementos em um molho de digestão complicada, o trabalho de Giorgetti era harmonizar um prato mais complexo sem desamparar seus sabores. O aroma final é puro extrato de um país que luta para não ser incinerado diariamente, com a intencionalidade de não perder seu foco – imaginar um futuro em meio ao caos em que vivemos. Ao final, talvez estejamos na mesma situação dos personagens em cena ao saírem de sua prisão motorizada, e a escolha nada óbvia da produção é tão desesperadora quanto real.

Um grande momento
A conversa com Jackson

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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