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Je Suis Karl

A indústria da supremacia

(Je suis Karl, ALE, CZE, 2021)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Christian Schwochow
  • Roteiro: Thomas Wendrich
  • Elenco: Luna Wedler, Jannis Niewöhner, Milan Peschel, Edin Hasanovic, Anna Fialová, Fleur Geffrier, Aziz Dyab, Marlon Boess, Victor Boccard
  • Duração: 126 minutos

Produção alemã que estreia hoje na plataforma Netflix, Je Suis Karl explora com complexidade as camadas escondidas dentro do terrorismo e dos que sobrevivem ao terrorismo, sejam em meio a quem ataca ou a quem é atacado. Com uma visão delicada sobre o extremismo e a ascensão da ultra direita, o filme não é um produto fácil de definir ou identificar, justamente porque suas intenções de discussão são muito espraiadas em lados convergentes, mas que aqui se apresentam de maneira gradual, sem atropelos ou esconderijos. Há clareza na narrativa, mas não há pressa; tudo está em lugares que não se identificam fácil, porque precisam de tempo para se fazer notar.

Dirigido por Christian Schwochow e escrito por Thomas Wendrich, o filme se apresenta como uma reflexão sobre uma fatia de tragédia quando na verdade sua narrativa é a tradução de como o grupo supremacista da obra cria suas estratégias de sedução – através de subterfúgios, uma narrativa se sobrepõe a outra, e a outra, e a outra. Com parcimônia, o quadro maior se apresenta e o terrorismo passa a ser só uma parte do todo, que envolve fanatismo, xenofobia e aliciamento, além da deturpação de valores pessoais com o intuito de mudar a mentalidade de pessoas essencilamente boas; o rastro de destruição deixado pelo fanatismo não tem fim.

Je Suis Karl
Foto: Divulgação

O filme conscientemente ataca diversas frentes prontas para esse lugar, como a da elegia ao terror, a vaidade e o orgulho do horror, as redes sociais criadas para envaidecer as palavras de vandalismo, e tantas outras. Isso tudo sem esquecer a base de uma história de luto, uma dor particular que corrói por dentro e que também consegue ser manipulada para fins histéricos. Transformar vítimas em troféus, reverenciar tragédias e criar a sua própria indústria de destruição, para com ela encampar sua voz, é uma parcela de eventos bancados pelo filme, todos de maneira acertada na montagem de sua narrativa.

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Uma máquina praticamente de venda de um olhar supremacista branco, anti-imigração e representante de ultra direita em sua reverberação, o grupo que cai de para queda sobre a protagonista do filme após a tragédia com sua família é uma amostragem de como a organicidade nessas organizações não são naturais, e sim criteriosamente arranjadas para o convencimento da população em relação à suas ideias reacionárias. Em posse de uma população fragilizada de eventos traumáticos em profusão, cria-se uma manada de fácil controle pronta a representar sua linguagem em ação direta, ou seja, levar o caos propriamente dito à sociedade.

Je Suis Karl
Foto: Divulgação

Se aborda a exteriorização do processo de discriminação a estrangeiros e o consequente crescimento da intolerância sendo cultivado e alimentado na população por grupos extremistas, o filme não abandona as questões que envovem não apenas o luto, como também a psicologia por trás de cada afetado pelo mesmo. Enquanto Maxi, afundada em mágoa, é facilmente cooptada por líderes sedutores infiltrados na política formal, seu pai Alex passa a viver à base de delírios e recordações, em um processo de depressão que o faz se desligar da filha. Sobreviventes de um ato criminoso, pai e filha observam sua relação voltar a se fortalecer mediante novos eventos de iminência trágica, mais uma vez.

Com belo encadeamento de eventos e soluções dramáticas bem azeitadas, Je Suis Karl é uma obra de ritmo intenso e linguagem acessível que realiza com certo requinte uma ideia popular sobre arranjos criminosos (mal) disfarçados de preocupação social; o discurso da candidata a um cargo político em uma palestra-show é o ponto alto para notarmos os meandros da sedução pelo qual qualquer ideia extremada precisa ser vendida para enfim assimilada. Uma linguagem que infelizmente conhecemos bem, tendo em vista nosso reflexo de governantes atuais.

Um grande momento
Pássaros mortos

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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