Crítica | Streaming

Duas por Uma

Dublê solteira procura...

(The Stand In, EUA, 2020)

  • Gênero: Comédia
  • Direção: Jamie Babbit
  • Roteiro: Sam Bain
  • Elenco: Drew Barrymore, Michael Zegen, T.J. Miller, Holland Taylor, Michelle Buteau, Teddy Coluca, Andrew Rannells, Wendy Meredith, Ellie Kemper, Charlie Barnett
  • Duração: 101 minutos
  • Nota:

A mensagem que Duas por Uma quer passar o espectador consegue captar bem rápido até: tanto faz se você é quem diz ser, a importância em Hollywood (e na vida) é se você aparenta ser quem diz; se aparentar, basta. Ou seja, imagem é tudo mesmo, e essa tecla é batida e repetida algumas vezes nesse novo produto Netflix, protagonizado por uma Drew Barrymore que talvez se confunda por demais com a protagonista do filme, inclusive parecendo dar conselhos a si mesma em determinadas cenas, e criar uma metalinguagem inesperada na produção, que vai bastante além do projeto leve que o marketing prévio vendeu.

Dirigido pela mesma Jamie Babbit que há 20 anos atrás estreou no cinema com a comédia indie But I’m a Cheerleader e depois mergulhou em episódios de séries de tv de sucesso sendo inclusive indicada ao Emmy por Sillicon Valley, o filme é mais que um veículo pra que recordemos os dotes de comediante de Drew, mas principalmente para demonstrar uma versatilidade e uma qualidade de atriz que já tínhamos tido acesso (afinal, ela ganhou todos os prêmios pela versão ficcional de Gray Gardens), e ainda promover um auto deboche com uma imagem de comediante física que ela um dia já teve – lógico, no filme de maneira estereotipada, já que Candy Black é basicamente uma atriz que fez sucesso por… cair.

Drew Barrymore em Duas por Uma

O problema de Duas por Uma nem se encontra no roteiro de Sam Bain (de Animais Corporativos), que reencena a clássica situação do duplo que substitui o protagonista por conveniência até que essa atividade corre longe demais em resultados quase psicóticos; o filme até trabalha esses clichês de maneira pouco inspirada na maior parte das vezes, mas o molho requentado é fácil de engolir porque há um certo charme no todo. É um entretenimento fácil que vez por outra até alcança um atalho pelo caminho, dando ao filme o vigor mínimo para que a produção chegue ao final sem aborrecer.

O problema reside em como concatenar as ideias, desenvolvê-las imageticamente com a pegada necessária, e principalmente definir o timing do todo. Carece ao filme uma definição real de que caminho tomar em relação ao tom que deveria ser desenvolvido pela produção, que caminha por trilhos indecisos facilmente perceptíveis pelo espectador. O viés cômico predomina, mas o filme tem uma melancolia muito proeminente, parece querer refletir sobre um vazio existencial geracional com um detalhamento sobre a exposição midiática e os resultados de sonhos mal elaborados, e mesmo sabendo que essa matemática não é inédita no cinema, aqui o resultado capenga na certeza, perdendo a definição e criando buracos narrativos no filme.

Drew Barrymore em Duas por Uma

Essas mesmas ausências eventuais tiram a naturalidade de Duas por Uma, que parece quase sempre alongado demais, não sua duração geral mas no tamanho de suas cenas particulares, sempre esticadas até perder o sentido, a graça ou o interesse. O material como um todo, como já dito, é de fruição agradável como qualquer passatempo, mas ao se aproximar do material, percebemos esse estufamento na cadência de determinadas sequências. Esse problema de ritmo na montagem de Patrick Colman desanda a produção, e se soma à falta de foco de gênero que já agrava o material e diminui uma produção com substância, mas finalizada às pressas.

Uma das provas da falta de apuro no filme é o clímax, que começa de dia, e sem passagem qualquer de tempo aparente, invade a noite só visualmente, porém os personagens agem sem que esse tempo se desdobre para eles. Estar diante de um projeto de potencial tão evidente parece ter desequilibrado o jogo, e a partida acaba terminando empatada a despeito do que aparentava. Seguem essa série de pequenos problemas de desenvolvimento de suas potencialidades com cenas que desenvolvem ramificações para os lados errados, e Duas por Uma acaba se valendo do talento real de Drew Barrymore para nos entreter com suas sósias cheias de personalidade e que valem a pena acompanhar.

Um grande momento
A primeira entrevista de Candy/Paula.

Ver “Duas por Uma” na Netflix

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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