Crítica | Festival

Espero que esta te Encontre e que Estejas Bem

Palavras que guiam

(Espero que esta te Encontre e que Estejas bem, BRA, 2020)

  • Gênero: Documentário
  • Direção: Natara Ney
  • Roteiro: Natara Ney
  • Duração: 84 minutos
  • Nota:

É sintomático que um festival histórico e que tenha passado especialmente nesses dois últimos anos por tantas dificuldades como o Festival de Brasília abra sua 53a. edição com um filme que esconda na história de amor no qual gira seu ponto central um grito de socorro pela memória. Espero que esta te encontre e que estejas bem, estreia na direção de longas da premiada montadora Natara Ney (de Divinas Divas e O Mistério do Samba), tem um ponto de partida inusitado que correlaciona histórias do passado que correm paralelas para se unir em um desejo de reencontro, um âmbito pessoal que perpassa a narrativa do filme, que se prova redentora.

186 cartas são encontradas na feira de rua de antiguidades da Praça XV, no Rio de Janeiro. Se a feira é uma entre tantas tradicionais espalhadas pelo país com o intuito de reaproveitar o passado, esse maço de cartas endereçadas da mesma mulher para o mesmo homem em espaço tão curto de tempo não são comuns, e despertam na diretora o acesso a uma história de amor particular sua, que ela precisa expurgar. Ao mergulhar no conteúdo dessas cartas e embarcar numa viagem que a leva até Campo Grande (MS) e também até um passado materializado em narração, Natara não imagina que essa procura a desvenda muito mais que ao casal protagonista.

Espero que esta te Encontre e que Estejas bem

Entrecortando essas descobertas que o filme proporciona, o tempo enquanto agente transformador como um todo. Tanto dos espaços físicos quanto das limitações que o mesmo impõe ao corpo humano e nossas capacidades gerais, o longa metragem vasculha as pegadas dos primeiros em 70 anos na vida em comum de casal apaixonado, ao mesmo tempo em que acompanha as mudanças que o tempo produziu nos lugares por onde passaram Oswaldo e Lucia, transformando paisagens físicas e memoriais e amarrar esse micro fato a uma discussão adulta sobre o papel da memória e do esquecimento na vida de pessoas, objetos e sentimentos.

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Enquanto tenta domar a melancolia pelo desencanto pessoal em seus devaneios em off pouco esclarecidos (ainda bem), a diretora promove um encontro de pessoas com quem tromba na busca pelo casal à seus próprios recortes existenciais, que por vezes os leva ao regozijo com os que os fundou, e por outras reaviva pontos adormecidos que emociona ao recriar a memorabilia intrínseca de cada um de nós. Em encontros cheios de camadas de História (como na reunião de ex-funcionários da PanAir), Espero que esta te encontre… tem a capacidade de nos fazer reconectar com feridas nossas que nem imaginávamos ainda abertas.

Espero que esta te Encontre e que Estejas bem

Ainda que, em sua estrutura o filme não tenha nada muito inovador em linguagem ou narrativa, é a carga emocional que Natara Ney imprime em sua jornada por respostas (incluindo as próprias) e em promover com sutileza a importância pela preservação da memória e da História que promovem o diferencial ao projeto, incluindo uma questão crucial que vai além do encontro (ou não) com seus personagens centrais. Afinal, para um filme que celebra a preservação, parece minimamente importante saber porque algo de valor inestimável por tão pessoal foi encontrado em uma feira de objetos, e o filme também encaminha essa questão.

Espero que esta te encontre e estejas bem também não apela baixo para envolver o espectador, pelo contrário, o filme constrói sua intimidade e a relação de cumplicidade com seu público de maneira muito humana e até intimista, sem jamais explorar para lágrimas banais ou choros convulsivos, fazendo até rir em alguns momento. É aí que percebemos que o acerto de contas de sua diretora é, de muitas formas, um carimbo para que ela desenvolva um filme que converse não apenas consigo mesma, mas que utilize suas experiências para conversar com qualquer outro ser humano que já tenha tido o coração partido.

Um grande momento
Nas piscinas

[53º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro]

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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