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Duas Vezes Você

As cores e os tempos do luto

( Dos Veces Tú, MEX, 2018)
  • Gênero: Fantasia
  • Direção: Salomón Askenazi
  • Roteiro: Salomón Askenazi
  • Elenco: Melissa Barrera, Anahi Davila, Mariano Palacios, Daniel Adissi
  • Duração: 95 minutos

Elas eram como almas gêmeas que tiveram a sorte de nascer próximas e nunca precisaram se separar. Nesse filme classe média alta privilegiada demais, Daniela e Tania vivem entre confissões e brincadeiras e é depois de uma destas, quando trocam os maridos em uma festa de casamento, que o destino as separa. Em Duas Vezes Você, o diretor Salomón Askenazi alterna entre o deslumbre e o conforto ao filmar aquele universo luxuoso invadido por um luto estiloso — ainda que doloroso — das duas mulheres e até que chega bem ao suspense.

A trama depende muito das atuações de Anahí Davila, de Días de Invierno, e Melissa Barrera, de Em um Bairro em Nova York, que seguram o filme e conseguem superar, com sua variabilidade e a humanidade que dão a suas personagens, a vontade que o diretor tem que impressionar com a perfeição dos quadros e dos ambientes. É muito perceptível que roteiro e direção definem de forma muito precisa tanto Tania quanto Daniela, mas as atrizes conseguem trazer nuances discretas que fogem à determinação.

Duas Vezes Você
Fotos: Reprodução

A perfeição buscada por Askenazi, apesar de esteticamente bonita, chega a irritar pela perfeição. Entre trabalhos de fim de curso de arte, onde se testa a distribuição de elementos e paleta de cores; fotos para revistas de decoração; comerciais de televisores ou qualquer outro eletrodoméstico, o que se vê é tão artificial que não convence. O objetivo estar evidente também não ajuda em nada. O que o diretor quer é definir quem são suas protagonistas, quais são suas personalidades, mas, obviamente, não precisava tanto.

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Ainda assim, é interessante ver como Tania sente a falta das cores de Daniela em sua existência em tons pastéis, e como ela vai buscar vida na casa da outra. O ponto de Duas Vezes Vocês está justamente aí, nas buscas pela vida de quem ficou. Mas quem partiu? O roteiro, também assinado pelo diretor, vai confundindo a cabeça do espectador ao levar o luto às últimas consequências e ao integrar universos distintos a um mesmo universo, onde as realidades não seguem a mesma linha de eventos.

Duas Vezes Vocês
Fotos: Reprodução

Seguindo a linha de outros filmes como Triângulo do Medo e afins, ainda que menos dedicado aos eventos, o longa desperta um interesse extra aos caminhos paralelos do drama enlutado de Tania e ao suspense sobrenatural de Daniela. Porém, as notas de inconsequência da motivação elitista e protegida desta, que é incapaz de assumir sua culpa, são muito incômodas.

Duas Vezes Você é um filme curioso por partir de um ponto inusitado e seguir um caminho ousado. Nas suas experimentações, surpreende, e seria muito maior se não estivesse tão preocupado em impressionar o tempo todo, com sua estética e sua vontade de se provar muito esperto sem necessidade. Mas, mesmo com suas questões, é merece ser conhecido. 

Um grande momento
Bigode na foto

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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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