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Ele Acredita em Papai Noel!

O peso dos defeitos

(I Believe in Santa, EUA, 2022)
Nota  
  • Gênero: Comédia, Romance
  • Direção: Alex Ranarivelo
  • Roteiro: John Ducey
  • Elenco: Christina Moore, John Ducey, Violet McGraw, Lateefah Holder, Sachin Bhatt, Matthew Glave, Paxton Booth, Missi Pyle
  • Duração: 88 minutos

Não dá pra começar Ele Acredita em Papai Noel! de outra forma, senão como Lisa, sua protagonista. Cética e aborrecida com o consumismo que cerca o Natal, a jovem mãe divorciada escreve anualmente artigos detonando a data comemorativa. Trocando em miúdos, não tem muito como encarar a enxurrada de títulos natalinos que invadem diariamente a Netflix entre novembro e dezembro sem pensar em como esses títulos são iscas para turistas da data. E é exatamente esse filme que tem todos os predicados que tiram qualquer credibilidade dos demais, nos levando a sentimentos aborrecidos durante hora e meia. Mas… e se isso for o propósito da produção, nos fazer sair do sério para entrar no clima da narrativa?

Não, não creio que essa produção protagonizada e escrita por John Ducey (ei, Ducey escreveu TRẼS roteiros de filmes natalinos somente esse ano, além de That’s Amor) seja tão sofisticada a esse ponto. O que acontece é fruto de narrativa clichê desses produtos feitos para durar exatamente esses dois meses, e que daqui a um ano serão substituídos por outros idênticos – ou quase. Tenho alguns amigos que embarcam nessa onda todo ano e secam toda a programação de títulos do período, feitos com o troco de duas mariolas e um suco de goiaba. Ainda assim, é um ponto a ser pensado para que Ele Acredita em Papai Noel! não nos incomode mais do que o necessário, e apenas termine sua curtíssima duração sem nos querer fazer desaparecer. 

Existe também uma maneira de assistir ao filme com uma reflexão genuína. Digo isso porque obviamente esses títulos sempre contam com uma moral da história, que aqui é o óbvio poder da fé, que precisamos utilizar para dar qualquer salto adiante, seja na crença do bom velhinho, na vontade de ter um pai presente, ou no embarque para um novo amor. A verdadeira questão que reside em Ele Acredita em Papai Noel! é a capacidade humana em sabotar histórias prévias antes de sequer tentar. Porque encontramos defeitos facilmente em novas narrativas? É o tal medo de ser feliz que nos persegue, e por conta dele criamos situações de auto defesa que impedem o florescer de uma relação saudável e cheia de prazer mútuo?

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Dirigido por Alex Ranarivelo (que também esteve por trás dos dois outros títulos de Natal escritos por Ducey esse ano), Ele Acredita em Papai Noel! até parte de um ponto de vista insólito – um homem de mais de 40 anos ainda encantando com o espírito natalino em toda sua essência – mas o filme pode ser debatido para além disso. Como dito, existe uma retração do ser humano em relação ao encontro e à beleza que pode surgir em meio ao caos. No fundo, nem Lisa e nem Tom estão preparados para sair de sua zona de conforto da solidão, e com isso se fecharam em situações esdrúxulas (a teimosia dela, a fantasia dele) como duas mulas empacadas, enquanto o amor passa bem à sua frente sem dar avisos de que voltará facilmente. 

Ah, poderíamos resolver a trama do filme facilmente com os dois adultos tendo mais parcimônia na hora de julgar os outros, mas aí, como sempre, não teríamos filme, né? O que podemos aproveitar de Ele Acredita em Papai Noel! e sua premissa é essa certeza que temos de que nada pode dar certo – mesmo que já esteja dando. Ainda que com a felicidade literalmente na porta, insistimos em ver o lado ruim das coisas. Ok, não deve ser fácil namorar um cara que simplesmente para dezembro para comemorar dia a dia o Natal. Mas quando queremos encontrar outro alguém, talvez seja melhor relevar possíveis besteiras encaradas como defeitos mortais. 

Pra fechar o texto, o tal valor do troco das duas mariolas… pois bem, é… Ele Acredita em Papai Noel! é bem pobrinho esteticamente sim. Uma cena em especial com uma corrida de trenós precisava de um CGI bem simples de ser feito, e não há como crer naquela montanha quando o recorte dos atores para o cenário é tão feio. Se você conseguir superar todos esses problemas (e o fato de que Ducey é bem pior ator que roteirista), pode ser que você termine o filme como Lisa e eu: apesar de tudo o que aconteceu anteriormente, entender que sim, é o que temos pra hoje, vamos abraçar e ser felizes. E, no meu caso em particular, enxugar a cara lavada de chorar com uma bobagenzinha da Netflix.

Um grande momento

O primeiro choque de Lisa

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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