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Em Busca de Zoe

(Saving Zoë, EUA, 2019)
Drama
Direção: Jeffrey G. Hunt
Elenco: Laura Marano, Vanessa Marano, Chris Tavarez, Giorgia Whigham, Michael Provost, Nathaniel Buzolic, Ken Jeong, Annie Jacob, Evan Castelloe, Whitney Goin, Jason Davis
Roteiro: Brian J. Adams, LeeAnne H. Adams, Alyson Noel
Duração: 95 min.
Nota: 1 ★☆☆☆☆☆☆☆☆☆

Assistir Em Busca de Zoe na Netflix faz com que o espectador se pegue confrontando várias questões, mas talvez nenhuma delas seja mais pertinente que “alguém acha que realizar cinema é fácil?”. Não necessariamente é preciso talento para produzir, dirigir e disponibilizar ao público uma obra de dramaturgia, mas não é raro que vemos o talento ser substituído pela coragem, às vezes pela cara de pau e muitas vezes pela ausência absoluta de noção e bom senso; não sei se saberemos um dia sobre o talento do diretor Jeffrey Hunt (Satânico), já essas últimas atribuições estão todas apresentadas pela segunda vez nesse misto de suspense morno, drama insípido e auto-ajuda para jovens moças em perigo.

Caminhando entre o que seria uma história de reconhecimento entre irmãs após uma tragédia e um suspense que se pretendia ousado em algum dos tratamentos do roteiro, o filme tenta aparentar uma atmosfera ‘naturalista’ ao mergulhar na situação de Echo, que perdeu a irmã Zoe e está na coluna do meio entre a aceitação e a revolta. A jovem e seus pais frequentam terapia familiar, há um olhar sobre a tentativa da mesma em retomar suas atividades, além de um reencontro com a irmã através das páginas do diário da mesma. Mas em meio a uma atmosfera esfumaçada e a personagens unidimensionais e desinteressantes se apresentando junto a protagonista, o interesse pelo todo não nasce.

Paralela a essa pegada tradicional, o filme adentra pé ante pé num universo misterioso da vida da falecida irmã, que tinha uma vida mais intensa que a de Echo. Para povoar gradualmente essa fatia da produção pisar o pé no acelerador e esquecer o pudor. Ao invés de termos a pitada de indecência que o contexto pedia, Em Busca de Zoe se contenta em situar sua narrativa, sem “ultrapassar os limites”. O resultado pode ser conferido na cena onde um personagem lida com uma carreira de cocaína por minutos indefinidos sem jamais consumir. Tem um cuidado tão extremo com qualquer milimétrica ousadia que o filme perde credibilidade cênica, se contentando em sugerir e não se preocupando com o resultado, evidentemente inverossímil.

Sem um texto com força para realçar seus valores dramáticos e sem a vagabundagem suficiente para divertir e chocar o espectador, estamos diante de um lento e doloroso espetáculo de irrelevância. Nas mãos de John McNaughton, um material muito ordinário rendeu uma ode à sem-vergonhice, o divertido Garotas Selvagens, filme que ensina que malandragem não tem gênero. Se Hunt tivesse visto ao menos metade dessa produção, teria tido um vislumbre de entender sobre cafajestes e golpistas e poderia ter pensado em injetar um humor canalha pra tentar salvar essa adaptação literária. Do jeito que ficou e sem escolher foco, a produção carece até de carisma.

As escolhas imagéticas são igualmente equivocadas, com o borrão nas laterais dos planos que significariam os flashbacks sendo utilizados sem qualquer parcimônia em determinado momento. Quando pretende delinear uma emoção mais forte às cenas, Hunt se vale de iluminação amarela (!!!!) em lâmpadas e neons na direção de arte, com resultados indescritíveis. Sem conseguir imprimir personalidade à sua direção, que tenta atirar em muitos alvos diferentes sem acertar nenhum, e com um elenco desastroso em sua totalidade (que conta com uma inexplicável participação de Ken Jeong, de Se Beber Não Case, como o psiquiatra), o longa se aproxima do desfecho com as intenções de homenagear o canal Hallmark em suas histórias motivacionais e de superação.

Esteticamente feio, sem qualquer propriedade artística louvável em seu desenvolvimento, seja no roteiro, na direção ou no material humano representado pelo elenco, Em Busca de Zoe é daqueles casos onde nem a diversão diante do caos é possível. Ficamos órfãos ao percebermos que nem material para chacota está em cena na produção. Há uma melancolia no ar que afasta um tom jocoso que possamos assumir ao término da produção. A sensação é velha companheira: a mais absoluta, inenarrável e solitária perda de tempo, daquelas tão avassaladoras por nenhum fotograma sequer ter salvação.

Um Grande Momento:
Não tem.

Poster: Em Busca de Zoe

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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