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Em Nome da Terra

Em sutil queda livre

(Au nom de la terre, FRA, 2019)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Edouard Bergeon
  • Roteiro: Edouard Bergeon, Emmanuel Courcol, Bruno Ulmer
  • Elenco: Guillaume Canet, Veerle Baetens, Anthony Bajon, Rufus, Samir Guesmi, Yona Kervern, Solal Forte, Mélanie Raffin
  • Duração: 103 minutos

Na reta final de Em Nome da Terra, após a reconstruída família protagonista assistir slides antigos sobre a infância de Pierra, o pai daquele núcleo, Claire vê o marido enquanto dirige. Ao longe, ele está impávido em cima de um cavalo, assim como na foto da cena anterior; é um homem em seu melhor, no habitat natural, absolutamente integrado à sua função no mundo. De repente, Pierre galopa ainda mais distante, e sua imagem vai sendo engolida por um declive, enquanto sua esposa a observa em vias de desaparecimento. Parece e é um resumo visual do que acompanhamos narrativamente: um homem do alto de sua potência ser tragado pela força dos acontecimentos, até não restar nem a imagem do que um dia foi, do que sente uma recôndita saudade inclusive.

O roteirista e diretor estreante Edouard Bergeon chama atenção com essa tristíssima ode sobre a perda de seu livre arbítrio em detrimento ao “fazer o que precisa ser feito”, no caso aqui a massacrante ideia de substituir os antepassados em algo, e dar continuidade a um nome na História que… isso é necessário de verdade? Quando Pierre se perguntar por isso, quase 50 anos terá se passado em sua vida. Com uma narrativa gorda a ser contada, os inúmeros desdobramentos no qual a família protagonista se vê arremessada e suas tentativas constantes de reerguer-se dão ao longa os sentimentos corretos para que o espectador compre suas viradas dramáticas, de gênero, avançando sempre rumo a diferentes tons.

Em Nome da Terra

Sempre um drama familiar de superação coletiva (e emocionalmente particular) porém assumindo o flerte com outras abordagens, Em Nome da Terra acompanha os eventos reais por trás de um quarteto caro ao diretor. A princípio leve e ensolarado, o filme cede ao romance adolescente, ao drama sobre fundo do poço moral, até esbarrar em códigos do suspense psicológico, criando jogos visuais para capturar o espectador e redirecionar as certezas da nossa compreensão cinéfila. Afinal, as chaves do melodrama estão sobre a mesa, então tudo o esperado acontecerá, exatamente da forma como imaginada. Certo?

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Para colaborar com essa gradação muito naturalizada de gêneros dentro de uma história trabalhada em cima de coloquialismos e registro do simples, o fotógrafo Eric Dumont (colaborador de Stéphane Brizé em Em Guerra e O Valor de um Homem) elabora planos dos mais impressionantes, que não apenas interessam ao filme esteticamente, como ajudam a expandir o debate imagético através dos instantâneos em cena, desde um incêndio espetacular até um resgate de horizonte perfeito, ambos exemplos de como utilizar o poder das imagens. Ao contar sua história, Bergeon entende que pode ir além do roteiro propriamente dito, e incrementa sua estreia com muita inteligência cênica.

Em Nome da Terra

No terço final, quando uma atmosfera exasperante se obriga à produção, o diretor passa a explorar os “frames” tradicionais para realizar suas intenções e pouco a pouco, utiliza esses fotogramas para sugerir saídas esperadas. Essa tensão utilizada amplia os sentidos para o filme, que começa a se permitir explorar um jogo psicológico na mise-en-scène que não trapaceia com o público, mas se metamorfoseia em novos caminhos de um labirinto emocional. Pierre, em queda livre por não corresponder ao que ele mesmo concebeu pra si e por uma competição que só fazia sentido e reverberava em sua própria cabeça, não percebe o grau de destruição que rodeia seu núcleo, até ser tarde demais.

O filme delineia seus personagens e suas motivações com o grau certo entre o envolvimento e a sugestão, sem doutrinar a forma como o espectador se deterá à obra. Não tem um rigor de exigir a originalidade em sua textura narrativa, mas isso é suplantado pela conexão com um elenco também ele disposto a retrabalhar sua percepções, indo de um extremo a outro sem deturpar suas interpretações. Todo o elenco é de extremo bom gosto, mas os trabalhos de Veerle Baetens (de Alabama Monroe), Anthony Bajon (melhor ator em Berlim por A Prece) e obviamente Guillaume Canet (de Na Próxima, Acerto o Coração) são especiais em sua visceralidade crescente. Canet, um ator de imensos recursos mas ainda não reconhecido a contento injustamente, têm aqui mais um momento sublime na carreira, dando voz a um homem que se perde em uma depressão causada por inúmeros gatilhos.

Detalhista na humanidade que se esvai sem que percebamos, Em Nome da Terra é um filme que clama por uma vida que parece ter se desfeito na juventude, na direção de sonhos alheios. Repleto de momentos especiais de realização técnica e igual assombro em seu grupo de atores, o filme investiga as tentativas de fugir de uma herança não desejada, de no legar essa mesma herança aos seus descendentes, mas acabar condenando a todos a uma recompensa ainda mais indesejada. Avô, pai e filho, de aparência normais, porém entrelaçados a um futuro que apresenta diferentes maneiras de derrota.

Um grande momento
Lembranças na praia

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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