Crítica | CinemaDestaque

Emily

Crônica de destruições

(Emily, RUN, EUA, 2022)
Nota  
  • Gênero: Drama, Romance
  • Direção: Frances O'Connor
  • Roteiro: Frances O'Connor
  • Elenco: Emma Mackey, Oliver Jackson-Cohen, Fionn Whitehead, Alexandra Dowling, Amelia Gehting, Adrian Dunbar, Gemma Jones
  • Duração: 125 minutos

É triste quando uma profissional tão interessante quanto Frances O’Connor parece não ter chance no cinema, hoje. Com belas atuações em filmes como A.I. e Palácio das Ilusões, a britânica de 55 anos há mais de uma década não emplaca algo relevante no cinema, e isso pode ter sido um dos motivadores de sua estreia na direção, esse Emily. Pois o trabalho de casa foi feito com louvor e aqui O’Connor inaugurou uma possibilidade diferente dentro de sua área, talvez até abrindo espaços para si no futuro. É um projeto bastante acima da média sob qualquer ponto de vista onde se analise, mas a sobriedade e a contenção com que tudo é colocado é de uma exatidão rara, principalmente tratando-se de uma biografia onde poderia se imaginar uma leveza que passou longe daqui. É a atriz tornada autora, trafegando por inspirar-se na trajetória biográfica que traz à luz.

Para além de investigar a juventude/vida de Emily Brontë, a mente brilhante por trás de ‘O Morro dos Ventos Uivantes’, Emily busca fazer uma varredura por relações humanas, tendo em observação os relatos sobre a introspecção da própria Emily e de como isso eclodiu entre os seus. É uma história trágica, por tudo que se conhece a respeito dessa família hoje, e O’Connor tem a coragem de manter essa aura sem tornar seu filme amargo; os personagens, no entanto, o são. A diretora iniciante consegue driblar uma série de situações que poderiam levar seu trabalho para um lado ou para outro, tornando a experiência menos qualitativa do que acabamos por ver, e com isso revelando segurança e talento para conduzir de maneira sóbria sua estreia. 

Ao ler sóbrio, não pensem em monocórdio ou desinteressante. Como dito, a diretora sabe muito bem os lugares por onde sua narrativa deve percorrer, como dar sentido ao que seria primordial ao único romance publicado pela autora, e em que texturas emocionais avançar para compreender a escritora. Para isso, entender sua estrutura familiar, os sentimentos que uniam os irmãos (e também desuniam), como a timidez de Emily se fez presente nos lugares onde foi excluída, e como uma vida de paixões reprimidas pode encaminhá-la para tão precoce desaparecimento. É um campo vasto de propósitos, que o roteiro reduz ao seu essencial para que fique em evidência o impacto de seu romance, produzido em meio a um turbilhão emocional. 

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Emily
Michael Wharley/Popara Films

Seria fácil, olhando do ponto de vista comercial e buscando uma aceitação de um público mais tradicional, levar Emily até um lugar de aproximação com as adaptações de Jane Austen, onde famílias de muitos filhos e poucos recursos procuram seu lugar no mundo, muitas vezes através do matrimônio. O feito aqui está na linha do extremo oposto, no que diz sobre atmosfera, gênero e energia de seus personagens. Tudo é mais interiorizado e algo soturno até, chegando em determinado momento até flertar com o suspense em cena verdadeiramente brilhante, de direção, roteiro, clima e entrega coletiva impressionantes. É um título surpreendente por se permitir adentrar vácuos sombrios da psique de seus tipos, que não são drenados de erros, e exalam feitos destrutivos a todo tempo. 

Nesse sentido, o que O’Connor pinta em cena é uma eclosão familiar muito mais assumida do que geralmente é, seja no século 19 ou em 2023; é errado achar que laço sanguíneo lega amor automático a quem quer que seja. Essa é uma das virtudes de Emily, ser muito fiel ao que está enredado no ser humano para além de uma família que não se escolheu, e que muitas vezes não te acolhe. O filme pinta um quadro de afeto muito externo, que rui de maneira veloz quando nos aproximamos. Se aproxima até da crueldade o que é feito de parte a parte em cena, entre pessoas que, da boca pra fora, dizem se amar, mas na verdade invejam uns aos outros, em seus talentos, valores e até no amor, que nem sempre é correspondido a contento. 

E como não podia deixar de ser, Emily também é um filme sobre opressão, não somente de gênero, mas obviamente que essa ideia tem um papel capital na narrativa. É o pai, o irmão e o interesse amoroso de Emily (e das irmãs, de maneira menos incisiva, mas também) regulamentando e tentando podar seu destino, seja com ação direta ou indireta, trazendo à tona o machismo histórico e uma herança de patriarcado ainda não destruída por completo. Por baixo da superfície, Emily Brontë nunca foi incentivada ou impulsionada por ninguém; seu destino foi decidido e colhido pela própria, que criou sua narrativa particular. Dessa forma sua trajetória meteórica não impediu sua história de transbordar significância para qualquer que seja o tempo – a tal liberdade de pensamento tão bradada, afinal, não era pra todos. Então ela foi lá e tomou pra si. 

Um grande momento

A máscara

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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