Crítica | Festival

Ennio

A música, antes e depois de Morricone

(Ennio, ITA, BEL, NED, JAP, CHI, ALE, 2021)
Nota  
  • Gênero: Documentário
  • Direção: Giuseppe Tornatore
  • Roteiro: Giuseppe Tornatore
  • Duração: 156 minutos

Não precisa de muito para ser convencido a amar Ennio Morricone. Além de todas as referências que já amealhamos durante a vida a respeito desse mestre, através de sua gigantesca obra – em quantidade, importância e valor histórico – sua postura reservada revela muito sobre sua personalidade. Isso tudo está em Ennio, il Maestro, documentário dirigido por Giuseppe Tornatore que não foge de uma burocracia tradicional da escola do gênero. Mas, sabendo de subjetividades que mudam as percepções a respeito de diferentes obras, aqui não é possível protestar. Isso acontece pelo fascínio fácil com o qual nos dobramos ao biografado e sua horda de amigos, fãs, admiradores e seguidores que levam tanto da experiência de cada um ao lado de um gigante tão doce. 

Fica a dúvida a respeito da posição de Tornatore na produção, confundida com a própria parceria entre eles – Morricone orquestrou, entre muitos trabalhos do diretor, o clássico Cinema Paradiso. Sua presença como entrevistado um longa dirigido por ele mesmo soa como algo egocêntrico, mesmo que fosse impossível ignorar a união entre os artistas. Com alguma boa vontade, no entanto, conseguimos descolar sua imagem pessoal por trás de Ennio da que ele manteve com o maestro, e as contribuições entre ambos são de fato pontos altos entre ambos. Ao menos há um lampejo de humildade ao não agigantar a participação de seus filmes na carreira do músico, por mais que essa importância exista. O tempo de tela, nesse caso, é observado e acertado dentro do que possa existir de conflito de interesses. 

Ennio
Cortesia Festa do Cinema Italiano

Aos poucos, a ampla rede de afetos que se formou entre sua figura vai sendo revista e sua influência, repaginada. Que entre as figuras que entendemos encontrar entre o séquito de fãs célebres de Morricone é de imaginar que vejamos John Williams e Quentin Tarantino. O susto, no entanto, acontece quando nos deparamos com Wong Kar-Wai e James Hetfield, ele mesmo, o líder do Metallica. Aos poucos, às esperadas figuras históricas em cena, que vão de Quincy Jones e Clint Eastwood, levamos sustos ao encontrar Bruce Springsteen e o “momento Stanley Kubrick”. Esse sem número de profissionais de categoria inestimável, e que incluem nomes irrepreensíveis da própria Itália, como Liliana Cavani, Dario Argento e Marco Tullio Giordana, servem para dar conta de um dado extra-documentário. Não é sobre desfilar uma presença estelar na produção, mas mapear a rede de conexão musical que Morricone produziu durante 60 anos, e que gerou uma nova percepção a respeito da composição para o cinema. 

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O que a maioria dos profissionais em cena diz, e que só é preciso conhecer a obra de Morricone para concordar, é que a música no cinema se tornou outra coisa, a partir dele. Sua chegada revolucionou o que era apenas uma das partes integrantes do todo, ocupando então lugar quase verbal da narrativa. O início de Era uma Vez no Oeste sozinho já responde a muitas perguntas; sem diálogos por 20 minutos, a concepção sonora que Morricone imaginou para essa sequência mudaria o entendimento da relação entre ele e Sergio Leone. A partir dali, e com a abrangência do que já havia feito até então, essa compreensão musical vai sendo remodelada e aperfeiçoada, e o resto é História. Sozinho, o filme consegue através da justaposição entre as imagens produzidas e a trilha que o compositor concebeu (ou não) para aqueles momentos, vai redefinindo o Cinema e sua ligação intrínseca com a música – e até com o som. 

Ennio
Cortesia Festa do Cinema Italiano

Para um admirador como eu, que não tem por hábito dissecar a vida pregressa de um artista e sim seguir apreciando o que ele criou, poucos momentos são tão assustadores (positivamente falando) quanto a descoberta da contribuição de Morricone à música pop. Cresci ouvindo clássicos do cancioneiro de sucesso dos anos 1960, que na minha infância já eram a nata do flashback, e compreender a contribuição do compositor a obras como “Sapore di Sale” e “Il Mondo” é assustador. Porque fica claro que, mesmo lá atrás na tenra infância, minha ligação com o cinema estava atrelada a tudo com o qual eu me relacionava, incluindo a música. A emoção de assistir a Ennio é inegável, mas particularmente, poucos momentos foram mais profundos do que reconhecer a excelência do maestro entre o que era, até então, apenas uma fatia do meu passado. 

Ennio, assim como Spielberg, é uma experiência catártica para a cinefilia, indissociável à experiência de assistir a um filme, mas que contribui para a bagagem cultural de qualquer um que julgue ter interesse em Cinema. As “cabeças falantes” tradicionais nunca chegam a incomodar porque, emocionalmente, temos acesso à pedaços da História que formou a nossa História, criando um laço permanente com cada um dos relatos que revelam os bastidores de gomos inesquecíveis de muitas artes, o cinema, a música e a arte de criar algo maior que o tempo. Ainda que o formato não agregue brilhantismo, todo o resto é puro exemplar da criação do divino com a humanidade, porque como dizem vários personagens, sim, a obra de Morricone é a simples resposta a existir algo de sobrenatural na existência. 

Um grande momento
“In Gnocchio da Te”

[9ª Festa do Cinema Italiano]

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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